—A gente havemos de ser amigos sempre, então não havemos?
—Havemos.
—E brincar sempre, então não havemos?
O outro não respondeu. Em quanto o Ricardo de gatas se adiantava para o pégo com o arame na mão, os olhos do filho da visinha acompanhavam de longe os movimentos da massa de gente negra que viera ao enterro. Toda a noite a mãi chorára, miseravelmente abatida sobre a enxerga que servia tambem para albardar o burro.
O pai fôra levado entre cabos de policia para a cadêa de Evora, com as mãos atadas nas costas e o fato roto. No puxão de orelhas e nas palavras desprezivas do prior sentira que estava filho de um assassino. Ouvia n’uma toada fatidica os signaes da Misericordia. Então as suas narinas palpitaram, sentiu na garganta como um novello que se engrossava para o estrangular. Uma cousa abateu-o todo, percorrendo-o de uma estranha galvanisação de mágoas.
Entrou a chorar alto, com profundos soluços que n’um jogo brusco lhe alevantavam as pobres costellas esburgadas.
—Deixa, dizia o Ricardo puxando-lhe as calças, deixa lá. A mãi não ralha, não.
E esquecidos, innocentes, recomeçaram a pescaria. Do outro lado da ponte as lavadeiras tinham cessado de bater roupa. As suas vozes cobriam de pragas o Estragado, assassino, bebedo e ladrão, que Deus confundisse na outra vida e as justiças degredassem n’esta, para càsa do inferno.