O negociante não se fez demorar. Ia mudar de roupa e sahia até ao jantar afim de conduzir as bagagens, e encommendar camisas no Leão da Europa, mais módernas.
—Pois vá, vá, dizia a Resgate, de aventalinho branco. E tagarellando:
—O tio desculpa-me a desordem que vai por essas casas, sim? Como não esperavamos... E demais tenho uns engommados.
O quarto era a alcova do Carvalhosa, forrada de branco, frisos de ouro aos cantos. Ficava ao centro o leito de ferro fundido, ornado da colcha de damasco amarello e envolto nas amplas azas de um docel de casquinha dourada onde dois pombos trocavam beijos. Defronte da janella uma console com pedra branca sustentava um grande espelho oblongo, de moldura negra e serpentinas aos lados. Do outro lado, sobre a banca de noite havia um despertador de crystal e uma palmatoria de prata dourada, com vela. O quarto era contiguo ao toilette de Maria do Resgate, e a porta aberta permittia observar a desordem d’aquelle interior; frascos destapados, sabonetes humidos diluindo na agua das bocetas de porcelana, agua suja no lavatorio, uma caixa de prata fosca representando um pecego, aberta com pó d’arroz á borda do tremó em ferradura; ao canto a banheira tepida exhalando perfumes de agua Farina e vinagre de Lubin, uma duzia de anneis sobre um cofre; escancarado o guarda-vestidos, e uma gaveta aberta mostrando um cofre de joias lapidado, em que as pulseiras, as medalhas e os pingentes se enroscavam tremeluzindo, em volutas de serpente phantastica. Justamente por instincto de vaidade, Maria do Resgate não fechou a porta que separava d’aquelles aposentos o quarto do tio, querendo que elle visse a sua riqueza, pudesse aspirar os perfumes de que ella fazia uso, ficando sciente dos mil cuidados em que envolvia o corpo branco, de burguezinha garrida. Do toilette ia-se para a sala e para o escriptorio do Carvalhosa. Havia no escriptorio um contador de charão com ferrarias maltezas que tinha abertas as portas e a chave na fechadura—era onde se guardava o peculio adquirido e accumulado. O tio Sabino percorreu rapidamente os tres compartimentos, sala, escriptorio e toilette que communicavam entre si, e por onde se podia entrar por duas portas, pela da sala que dava para a escada, e pela da alcova onde elle ia dormir. Bem! Lançou ruidosamente a agua na bacia do lavatorio, tirou o frack de cheviotte cinza, arregaçou as mangas da camisa de chita e atirou com as botas. Lavava as ventas, bufando de satisfação. Dobrou cuidadosamente o fato que despira, e metteu-o na mala d’onde já fizera sahir uma rica farpella de pano preto. Pôz camisa lavada e envergou a farpella nova. Diante do espelho apartou a guedelha, e sacudia a poeira das botorras, cantarolando:
Ai—i—ó—ai!
Quem escorrega, tambem cai.
E paramentado de rico, fez ainda sahir da maleta de coiro uma especie de sacco de lona com fechos e corrêas. Debaixo da cama, por esquecimento tinham ficado as alpargatas do Carvalhosa. O tio Sabino calçou-as, as suas narinas palpitavam. Correu o fecho da porta cautelosamente, foi até ao escriptorio do Carvalhosa e saccou da gaveta do contador uns rolinhos de libras; de passagem pelo toilette arrecadou o cofre de joias, os anneis e a caixa de pós d’arroz; de cima da banquinha de noite desappareceu a palmatoria de prata dourada e tudo foi arrecadado no sacco.
Ai!—i—ó—ai!
Quem escorrega, tambem cái.
Fechou destramente o sacco, tendo-lhe mettido primeiro a camisa de chita que despira, a fim de não tinirem dentro os metaes. E de chapéo á banda e cachimbo na bocca sahiu, o sacco pendente, fechando a porta e tirando-lhe a chave. Ninguem estava no corredor; Maria do Resgate engommava na saleta; as crianças na cozinha cortavam papagaios, chilreando.