—Arthur! chamou toda radiante a Maria do Resgate.—Uma criança appareceu de bibe curto ás préguinhas, todo garrido de rendas e entremeios. Era forte e vermelha, de grandes olhos e bocca pequenina. Tinha uma barretina de cartão na cabeça e uma espada na mão, meias de lã ás riscas, ares de guerreiro victorioso.

—Eh marôto! fez o tio Sabino com um movimento para agarrar o pequeno.

—Quem é, mamã?

—O teu padrinho, pateta; pede-lhe a benção e dá-lhe um beijo.—O pequeno obedeceu.

—Gostas de mim, gostas? inquiria fazendo inflexões ternas de voz, o velho commerciante.—E para o entreter promettia-lhe caixas e caixas de bonitos que trouxera na bagagem, para elle só. Cobria-lhe as faces de beijos, dizendo—pareces-te com teu pai, tens o ar e os olhos da nossa gente, marotinho. E loiro e valente, eh!...—Maria do Resgate dava ordens na casa de jantar, revolvia as gavetas do linho rico para a cama do hospede; ia-se estrear a colcha de damasco amarello, com passaros, que o Carvalhosa adquirira n’um leilão. E dos guarda-louças sahia a melhor porcelana ingleza, quasi transparente, com filetes delgados, de caros esmaltes em mosaico. Quando o tio Sabino entrou na casa de jantar teve como um deslumbramento. As crianças saltavam-lhe nos joelhos fazendo perguntas sobre tudo; as cortinas de cassa afastadas para a banda, deixavam entrar o sol tepido de inverno e a pureza incomparavel do ar. Pelas janellas, abrangia-se o panorama mais vasto e pitoresco da cidade e do rio; os canarios cantavam celebrando a alegria da hora e comendo a alface fresca e tenra presa nos arames das gaiolas; no aparador de carvalho de ferrarias sinzeladas, as frutas e as passas, ás pinhas nos açafates das Caldas e em fruteiras de vidro, sorriam em disposições symetricas; tinham posto flôres frescas nas jarras e descoberto a face de crystal polido do faqueiro de prata em estojo de velludo cereja. Um gosto, um conforto e um aceio aromaticos, pareciam crystallisar n’aquelle interior a felicidade domestica, como um diamante nos tres dentes de um engaste. Havia um só talher, mas as crianças pediram mais lunch e foi preciso para as satisfazer e agradar ao tio Sabino, sental-as á mesa, aos lados do velho, doido de alegria e cheio de commoções de ventura.

—Vossês aqui devem ser muito felizes, dizia elle mirando tudo. Vê-se de tudo isto que devem ser bem felizes. Ah!... eu nunca tive familia, senão criança. Que bem que isto faz!

E dilatado referia a sua historia, os contratempos dos primeiros annos, a avareza febril com que são contadas, embrulhadas e adoradas as primeiras economias, a cidade de projectos construida á medida que se avança no negocio, a doida embriaguez com que se recebem as primeiras felicitações quando nos presentem ricos. Que mundo de aéreas phantasias, que titilamentos de ambição sem termo!...

Por tres ou quatro felizes, sessenta e mais partidos da patria com enthusiasmo, saude e esperanças, e cedo entregues á miseria, ao envilecimento e á morte.—E referia as casas de malta das cidades americanas, onde n’uma promiscuidade ignobil apodrecem dezenas e dezenas de pessoas; os miasmas das respirações accumuladas e dos corpos sem hygiene; as asperas fadigas sem paga, dos miseraveis sem protecção!

O seu ideal fôra sempre um ninho como aquelle de Maria do Resgate, no meio da familia e entre crianças loiras.—Maria do Resgate sorria ás expansões calorosas do velho, satisfeita de o vêr contente e commovida da historia d’aquelle trabalhador infatigavel, que só captára as sympathias da riqueza ao cabo de trinta ou quarenta annos de labuta. Sem querer, tinha reparado n’uma cousa—o tio Sabino não offerecia na pronunciação o menor resaibo brazileiro. O Alfredo apontára-lh’o como homem intelligente e amigo de leituras; bem podia ser por conseguinte, que aquella correcção no dizer, um pouco lisboeta por ventura, fosse esforço de estudo e evidente resultado da resistencia ao contagio. Não pensou mais em tal, d’alli em diante. O chapéo do Chili, as botas de larga tromba, a pelle secca e trigueira, a longa barba corredia e os dentes encravados em gengivas fofas de carie, attestavam de sobejo o negociante do Pará, enriquecido pelo trabalho de toda a ordem, e filtrado durante longos annos, através as gradações, que vão da miseria ao conforto. A refeição durou muito, porque o tio Sabino era fallador, e a cada passo interrompia a mastigação para fazer festa aos pequenos ou dar palestra á Maria do Resgate. Quando se ergueu da mesa, um rubor se lhe alastrára na pelle. Pediu licença para accender o velho cachimbo de cipó, representando um tigre cingido por uma boa, cousa segundo affirmava, sem que não podia passar depois da comida. Foi até á janella, e esteve largo tempo debruçado ante o panorama magnifico da cidade cheia de sol. Tinha nos dedos enormes anneis de brilhantes, e um grosso cordão de ouro lhe servia de corrente de relogio. Os cabellos um tanto raros nas fontes, arripiavam-se-lhe para traz, descobrindo os angulos de uma testa abaúlada, de teimoso. O nariz astuto e cartilagineo era movel nas azas, cahindo aduncamente em gancho. Sorrindo, uma contracção franzia-lhe as commissuras da bocca rôxa. Era antipathico á primeira vista, mas a voz e a palestra insinuavam-se, agradando. Maria do Resgate foi dar a ultima vista d’olhos pelo quarto que a criada acabára de arranjar, e voltou dizendo:

—Que estava prompto e quando o tio quizesse...