Sete horas, e Maria do Resgate acabara de notar a porta da alcova fechada. Diabo!...
No dia seguinte a policia andava em campo para descobrir o larapio, que com tamanha pilheria roubára a familia do Carvalhosa. Nem o habil Antunes, nem o sagaz Castello Branco, nem o astucioso Ferreira conseguiram cousa alguma.
É necessario cuidado com os tios da America.
A Idéa da Comadre Monica
Logo nos fins de setembro, quando tinham cahido as primeiras gotas de chuva, o Canellas tratou de encetar a sua vindima. Não era cedo já, a fallar serio. Havia duas semanas que o Garrocho começára, e que muitos lavradores tinham aberto os seus lagares. A novidade promettia. O verão ia temperado, no inverno não chovera de mais, e d’esta moderação de clima provinha a riqueza dos cachos e a vigorosa maturação dos frutos. Feitas as contas o Canellas devia seis moedas ao todo. O da Vanga, emprestára-lhe tres libras para comprar o jumento na feira da Vidigueira; devia quatro meias corôas ao boticario, da doença da mulher; devia ao medico; devia uns fiados na loja; oito mil reis, das casitas. Se fosse feliz na colheita da uva, pagava tudo e ainda guardava a sua tarefasita de vinho. Deus ia ajudando um homem, dizia elle para a mulher, e quando o pequeno fosse crescido melhor passariam. Assim, uma bella manhã, o Canellas com a mulher e o filho, deitaram caminho das vinhas, mais o burro. Pela estrada iam encontrando os ranchos de vindimadores; os rapazes trigueiros e musculosos da freguezia, ceifões e polainas, os chapéos de grosseiro feltro derrubados para diante; grupos de raparigas de sangue vivo, grandes olhos ardentes de meridionaes, os cestos ao quadril; velhos trabalhadores corcovados, de barrete, alforge ao hombro, atraz dos seus jumentos vagarosos, felpudos e pacificos; pesados carros de duas rodas calçadas em chapas de ferro, luzentes do attrito no saibro das estradas e pejados de enormes cestões de verga, para o carrego das uvas. A cada volta do caminho convergiam veredas por onde os magotes derivavam, dando—boa fortuna!—aos que se dirigiam para outro sitio. O campo n’aquelle tempo começava a perder o viço. Entre vinhedos de um verde carregado, emmaranhado e pittorescamente confuso, alastravam-se a perder de vista os ferragiaes amarellos, sêccos de raizes do trigo ceifado, onde as ovelhas mansissimas, sonoras de chocalhos, pasciam destroços, as hervagens finas dos barrancos, os fenos fibrosos dos corregos e as gramineas deixadas nos vallados. A região sem grandes depressões atrevidas, sem cordilheiras de arestas a prumo, offerecia á contemplação um aspecto sereno de ondulações graduaes, moldadas quasi na mesma curva regularissima; toda a zona abrangida n’um olhar, soffria o cultivo solícito e amigo da aldêa proxima, branca agglomeração de casinholas de taipa, sem estructura regular, desenhada no fundo cinzento, metallico e um pouco triste, das grandes oliveiras de troncos fendidos. A léste, no esfumado anil da massa de ar, linhas quebradas de valles distantes esboçavam-se risonhamente na luz da manhã. Nos limites da freguezia, no termo, a herdade assignalava-se com azinheiras gigantes e sombrias, grandes braços pelludos de musgos, contorcidos como n’uma desesperação sem remedio, contra o risonho céo transparente, bordado pelo algodão das nuvens em farrapinhos tenues, como um capricho de criança. O Canellas dirigiu-se á sua vinha, que ficava distante.
—Olha se nós recolhemos este anno um potinho de vinho!... Vendido, dava bem para um porco de quatro arrobas.
—O vinho ha-de estar barato, disse a Luiza, a esposa.
—E eu hei-de ter uns sapatos, gritou o garoto, saltando com os seus rijos pés immundos, na poeira da vereda. O burro, de orelha pendente, o passo reflectido, o olhar tristonho e lyrico, ia caminhando, todo coberto de moscardos. Á frente de todos, o cão Bedelho, corria e ladrava ás perdizes. O ar aquecia, o sol rebentava no céo a cascata da sua luz crua e candente, em quanto nos silvados e nas faias do proximo ribeiro, os garotos dos melros, na frescura humida das folhas espalmadas, faziam troça da companhia.