A vindima durou-lhes quatro dias, e a novidade fundira-lhes bem. Foi um tempo alegre, o que passaram. Em quanto a Luiza toda arregaçada, de chapeirão nos olhos, colhia os fructos mais o filho, cantando, o Canellas com uma vara de marmeleiro dirigia o burro carregado com dois cestões cheios, da vinha para a aldêa, e com outros dois vazios, da aldêa para a vinha. Quando acabaram o trafego, houve jantar de carne, para que foi convidada a visinha Monica, madrinha do rapaz. E á noite na banca da casa de fóra, jogaram-se as cartas, a Padre-Nossos.
—Quando fôr tempo, disse a Luiza á comadre, ha-de provar um copinho do nosso. A Monica arrebitou a penca, um riso guloso.
—Agora para o inverno, que é para aquecer. E vieram as confidencias, os orgulhos do bom governo de casa, a feliz plenitude de não deverem nada a ninguem—senão obrigações. Tinham pago ao medico, tinham pago á botica, ao da Vanga, os oito mil reis das casas... E ainda, na despensa, ao canto, fervia a talhita de mosto, objecto das mais caras esperanças e base de uma abundancia de chouriços excepcional em casa pobre, no inverno que ia entrar.
A Monica, sêcca figura de viuva pobre, seios chatos e estereis, um grande lenço de chita preta no pescoço, as contas de louça desfiadas a gloriæ e a Salve-Rainhas durante a monotonia dos serões, roía-se de inveja, um riso amarello de comilona e de desamparada. E formulando bons desejos que não sentia, ia pedindo a Deus désse aos compadres tanta fortuna como desejava para si propria. O casal agradecia. O Canellas a espaços, esfregando as grossas mãos de cavador, observava:
—Estemos pagos e sastifeitos! Cinco senhoras!
—Estemos pagos e sastifeitos! E em côro, todos formulavam planos de futura prosperidade: a compra de uma courella á Barrada, a acquisição de uma adega e a postura de bacello, nas terras da Pichaleira. A Luiza tinha precisão de um capote de pano para ir á missa; indagava da comadre qual era o preço, queria do bom!
—O meu, dizia a Monica, custou-me quatro sobranos. Ainda foi no tempo do meu homem, que Deus tenha. Que hoje!... Quero um trapo de uma saia e tenho de o ganhar.
Desde aquella festança, a Monica cresceu de desvelos para o afilhado, vinha todas as manhãs saber como tinha passado a comadre, e como estava o pote do vinho.
—Nada para sustancia como dois dedos de sumo. Logo pela manhãsinha, que regalo!...
E armavam grandes palestras a respeito do tempo, das lavoiras, dos casamentos e dos escandalos. A filha do Cardoso estava maluca pelo Francisco da Balsa. Contavam-se cousas bonitas. O mundo ia por agua abaixo. E por transições subtis, alludiam ao pote da despensa. Um domingo provaram. Era todo vermelho, transparente e fluido, de um aroma delicado de roupeiro e moscatel. Boa gota, comadre! Sim senhoras. Boa gota! dizia a Monica, beberricando. E com um estalo de lingua: é de rachar pedras, caramba! De tarde sentiram a cabeça pesada e foram-se deitar muito vermelhas. No outro dia, outra. Cada vez sabia melhor. O rapasito estava na escóla, a tractos com o Monteverde. Á noite, depois da cêa, o Canellas ia logo para a cama, cançado de cavar desde o romper do sol nas fazendas dos senhores proprietarios da terra, e não dava pela falta. Ellas, as duas, em se apanhando sós, era aos quartilhos. E dilatadas em narrativas eroticas de frades, de estudantes e mulheres infieis á honra conjugal, passavam as tardes juntas e os serões, com grandes risadas, uma profusão de gestos e de palavras, certa licença de epithetos, reparavel.