Finalmente pelo Natal, o Canellas foi emechar o seu vinho, segundo o uso. Destapou o potito: que diabo!... Estava quasi meio. Chamou a Luiza todo desconsolado.
—Ó mulher, não sabes? Temos o pote em meio. Quem tirou d’aqui o vinho? A Luiza debruçou-se, muito admirada.
—Santo nome de Deus! exclamou. E com um accento choroso: ora vejam a nossa desgraça!...
—Tu bebestel-o, mulher! affirmou o Canellas. Ella encarou-o duramente, sem resposta. O Canellas aprumou-se colerico.
—Tu vendestel-o, mulher! A Luiza voltou-lhe as costas, desdenhosa. Á tardinha, depois d’uma scena violenta, o Canellas sahiu. A mulher foi logo a casa da comadre contar tudo, pedir conselho. A Monica depoz a meia, tirou os oculos gravemente.
—Ai, não tenha receio. Esta noite, arranja-se.
—Mas como, comadre, como? Se elle sabe de tudo, ai espinhela! Foi para casa cheia de medo. O Canellas voltou á noite para cear, taciturno, abatido, sem dar palavra. Bateu no pequeno mal achou pretexto, atirou o chapéo com mau modo. Ao entrar no quarto da cama, resmungava:
—Estas bebedas, senhores!... Não dormiu toda a noite, a pensar no seu vinho e a amaldiçoar a hora em que casára. Mas não vira nunca a Luiza alegre, não tinha motivos de suspeita. Havia bons annos que não guardava vinho. O pote, de barro, estava talvez secco, era poroso, tinha seis gatos no bojo, podia ser que absorvesse, ou deixasse sahir o mosto. Mas tanto!... Deram dez, deram onze, deu meia noite, e elle ás voltas na cama. De repente sentiu correr no telhado. Poz o ouvido á escuta. Ouviu rir. Uma voz gritou: Canellas! Canellas! Riam, aos pulos nas telhas. Canellas! Santo nome de Jesus! Era o diabo! Chamou a Luiza: ó mulher! Não ouves? São as bruxas. Não ouves? Canellas! Canellas! Começou a rezar o Credo, enganava-se no meio, começava outra vez, não sabia concluir. Diziam:
—Vamos ao vinho! E a correria continuava. Vamos ao vinho! O pobre estava em suores, varado de medo.
No outro dia mal luziu o buraco, saltou fóra da cama, vestiu-se ás apalpadellas, poz a manta ao hombro, agarrou nos alforges, desprendeu o burro e partiu para o trabalho. Tinha a cabeça em agua, não se lhe tiravam da mente os gritos e as risadas. Canellas! Canellas! Então, as bruxas andavam com elle? Vamos ao vinho! Vamos ao vinho! E sentil-as-hia correr no telhado todas as noites, aos berros e ás gargalhadas, distribuindo os seus pobres almudes pela communidade, e ainda em cima, escarnecendo-o. Durante o dia viram-no mettido comsigo, acabrunhado, carrancudo, dando enxadadas na terra desesperadamente, a suar como um cavallo.