—Mas não appeteces nada? chá e fatias; mata-se o gallo.
—Ai, não! Só appetecia uma cousa. Mas não, é melhor não.
—Dize o que é, anda. Se fôr caro compra-se: ora!...
Ella ficou calada, rezando automaticamente.
—Então, que dizes? Que appeteces? Vamos.
—Olha, o que eu comia bem agora, eram uns peixinhos da ribeira das Sormarias. Tenho mesmo vontade, mesmo de dentro. O Canellas foi logo albardar o burro, agarrou n’um cesto e poz-se a caminho, sem querer ouvir mais.
—Não tenha algum desmancho! ia elle dizendo.
Apenas lhe não sentiu os passos, a Luiza correu a chamar a comadre. Entraram ambas na despensa. Tinham mettido o resto do vinho n’um odre; uma agarrou por um lado, outra por outro, e arrastaram o couro turgido até á porta. Era noite fechada e ninguem passava na rua. Das chaminés evolava-se o fumo dos lares, ouvia-se rir nas habitações das familias, e um cão latia no campo, sem echo; em quanto, acalentadas no berço as crianças choravam. D’alli a pouco as duas, viram chegar o Coxo, taberneiro, pesada figura de velhaco, apopletico, gorro sebento, um riso desdentado de patife, ironias bestiaes, navalha.
—Venha o bago! disse a Monica. O Coxo quiz roubar-lhe um beijo. A Luiza occultára-se atraz da porta.
—Podias ter vindo mais cedo, disse a velha. Estendia as mãos ao preço do odre, dizendo: