A tactica do gato, mudou então: rebolando-se lascivamente pelo declive da aba, o marau pôde attrahir a si todo o tule da facha livre, que Fernanda enrolára ao pescoço, um momento antes.

Uma vez envolto nas ondas de espuma do tecido, entrou a arrastar o chapéo atraz de si, pela mesa fóra. Foi o signal: a gatinha sacudiu rapidamente a somnolencia, espreguiçou-se com uma distensão prolongada de patas e de espinha dorsal, escancarando a guela e distendendo as unhas. Esse movimento largo desenhou vigorosamente o corpinho da fera contente, que desperta. O dorso, de uma alvura singular de arminho, teve um lampejo brusco de scentelha, quando o craneo chato e muito curto, de maxillas ferozes, roçou com um deleite perfido de volupia, as pennugens imperceptiveis das patas, armadas terrivelmente de alfanges curvos. Com um pulo agachou-se na copa do chapéo, como n’uma caverna, á espreita. O seu olho inquieto fusilava. Todo o corpo encolhido, percorria-se de pequeninos fremitos de impaciencia, que as orelhas continuavam, imprimindo á cabeça um grande cunho de astucia recalcada. O gato vinha de rastos apagando o som dos movimentos, garrido no seu tule como um pagemzito aventureiro. E á medida que elle vinha, o pescoço da gata, do outro lado da aba, alongava-se, escorregando dôcemente pela sêda do forro. Por fim as patas encontraram-se, e cada qual disputou o tule, ás unhadas, a dente. A facha, que se desenrolava do corpo d’elle, acabou em frangalhos, nas unhas dos dois.

Um golpe desunira porém duas fibras de palha, da aba derrubada. O gatinho metteu a cabecita pela abertura, radiante de maldade, e foi morder o cacho de myosothis. Do seu lado a gata continuou a obra, descobrindo os dentinhos brancos. Mas em breve o destroço se propagou aos presentes d’annos do Arthur, com uma rapidez de saque premeditado. As corbeilles viram-se despojadas das suas cintas de hera, reluzentes e excentricamente recortadas, e dos seus maciços de camelias reaes. Na vertigem do can-can desenfreado, que os dois diabitos armaram por cima da banca, todos os objectos leves eram arrojados para a banda n’um rodopio constante; os gitanos partiram braços e pernas, as pastorinhas ficaram sem cabeça, algumas bocetas violentadas cederam, e foi um destroço geral de natas, especiarias e recheios. Um rebuçado d’ovos ficou pegado á cathedral de Fernanda, obstruindo o portico por onde os devotos de cartão começavam a entrar, envernizados e festivos. E a walsa extraordinaria continuava sempre sem respeito e sem cansaço. Na manhã do dia seguinte, em quanto no pateo o cocheiro punha o landeau, e as carruagens chegavam trazendo os priminhos e as numerosas tias, Fernanda com uma deliciosa tunica azul céo e um largo collar de marinheiro bretão, foi chamar o Arthur que acabava de vestir-se.

—Bons dias, disse ella, beijando-o. Tens alli muitos bonitos, vem vêr.

O pequeno não quiz saber de mais; foi ás carreiras abrir a porta, e entrou cheio de avidez, no gabinete onde estavam dispostos os presentes.

Ao principio, Fernanda e o irmão entreolharam-se n’um desolamento indescriptivel, vendo os dois gatinhos abraçados que dormiam tranquillos, no meio das ruinas do soberbo bazar construido na vespera. E tão socegados como se nada lhes pezasse do que haviam feito!

—Olha, balbuciou Fernanda sentindo as lagrimas na garganta, estragaram tudo!

—É verdade, fez attonito o Arthur.

Veio-lhe um impeto de raiva sanguinea contra os dois patifes, que pareciam zombar com os seus tranquillos olhares, da assolação que haviam feito. E com o primeiro chicote que viu, descarregou nos lombos do grupo uma vergastada sibilante, que arrancou um berro ás duas gargantas contrahidas.

Diante do esqueleto do gracioso chapéo de palha, tão pittorescamente ornado do seu cacho de myosothis, a pequenita cruzando as mãosinhas pallidas, de uma esculptura fina e reticulada de vêas microscopicas, chorava silenciosamente as perolas de uma dôr serena e de um amor espesinhado de ingratidões—porque amára com paixão os ingratos pupillos.