Por entre as corbeilles extravasando côres e perfumes, os gitanos de terre-cuite dançavam aos pares, e as pastorinhas de louça com os seus trajos coloridos e os seus rostinhos frescos, pareciam de antemão celebrar a formosa manhã a desabrochar no anniversario do dia seguinte.

Como o Arthur ficaria contente, quando ao outro dia abrissem á sua curiosidade, aquelle profuso mundo de brinquedos e gulodices!... E Fernanda, nos bicos dos sapatinhos e sem fazer ruido, arrumava e dispunha tudo, ao lado da mamã, tocando com as pontas dos dedos as cousas, como n’uma capella, absorta n’um extasi profundo de sonhos innocentes, como se o seu espirito viajasse por um grande paiz de quinquilharias ideaes e maravilhosas.

Quando acabaram a tarefa, a mamã sentou-a no collo, commovida por aquella dedicação fraternal e solicita que tudo queria para presente d’annos do Arthur; beijaram-se ambas, por muito tempo.

—É verdade, disse Fernanda, e o chapéo?

A mamã foi buscar o chapéo: era um delicioso bijou de palha amachucado á banda, com um ramilhete de myosothis adoravelmente perdido n’um tufo de gaze fina, tão fina que mal se apertava na mão, parecendo espumar por entre os dedos, como Champagne vertido de uma torneira.

A pequenina quiz pôl-o: ficava graciosamente, um pouco tombado sobre os olhos.

De sob as abas, em caprichosos rodopios, rebentava a cabelleira loira de cherubim, que adquiria contra a luz transparencias de oiro fino, emquanto uma onda de tule branco ia cingir-lhe o pescoço, como aragens tecidas por mão de princezas mouriscas, das que fallam os contos do Meio-dia.

O desejo de Fernanda era não tirar mais esse pequenino e fresco chapéo, cuja aba tombada enchia de uma sombra humida os seus grandes olhos. Mas era forçoso esperar o dia seguinte, quando fossem para a quinta. A pequenina exigiu que o chapéo ficasse sobre a banca, entre os presentes d’annos do Arthur, descoberto e aninhado na sua onda fofa de tule branco. Esteve ainda a olhal-o: os myosothis com as florinhas miudas, de uma contextura paciente e nitida, dispostas n’um forte cacho azul, entre folhas verde baço, davam um encanto ingenuo á copa conica, um pouco extravagante talvez. Visto de lado, parecia um ninho de pennugens tepidas, de que os passaritos houvessem partido um minuto antes. De repente a sineta tocou: voltava o Arthur do collegio. Fecharam a porta do gabinete muito depressa, não desconfiasse elle. No dia seguinte, quando lhe mostrassem tudo, dizendo:—ahi tens, é para ti...—que loucuras e que jubilos não commoveriam esse vermelho endiabrado, de que os velhos criados tinham já medo! Apenas o gabinete ficou só, a gatinha trepou para cima da mesa, e pôz-se a mirar tudo, dando passadinhas leves, toda cautelosa pelo meio dos presentes accumulados, cheirando e lambendo aqui e além. Nos seus olhitos garotos, um clarão de malicia ingenua, parecia beber enlevadamente os matizes: farejava os cofres por todos os lados, baixando a cabecita, como quem reflecte. Diante da cathedral o seu pasmo pareceu crescer, porque se deteve de pescoço estendido, a medir a altura das cupulas, de patas firmes nos primeiros degraus da escadaria, com prejuizo de dois devotos de cartão, que esmagou com uma indifferença soberana. Deu com o chapéo de Fernanda enroscado na facha de tule branco, e a passadas lentas foi para elle, com o dorso alto, espiralando a cauda, toda contente do achado. A tarde cahia, e o gabinete carregava-se de sombra.

Pela vidraça, a paizagem ganhava manchas sombrias e grandes esbatimentos de um vago picado a pontinhos de gaz rutilante. Subia do bairro commercial e das grandes ruas de transito um tohu-bohu de labutas que esmorecem, e carruagens que se perdem, circulando. Um sino tocava. No gabinete, faziam-se deslocamentos confusos de fórmas e de aromas, e os olhos da gata phosphorecentes, luziam como dois faroes em fluctuação, na penumbra alastrada em torno. A palha do chapelito gemeu: a gata acabava de enroscar-se no ninho da copa, fazendo posição para dormir. Nunca sentira cama mais macia e mais dôce que n’aquelle fundo de chapéo forrado de sêda branca, onde o tule enrolado dava uma molleza preguiçosa de cochim, de edredon! Inda porém não tinha cerrado os olhos, e já o irmãosito, dando um salto agil, cahia em cheio sobre a ampla aba do chapéo, amachucando o precioso cacho de myosothis. A coquette então ergueu a cabecinha ironica, com um meneio creoulo de amante benevola. De cima da aba curva, como de cima de um muro, pendia a patinha do gato, toda branca e nervosa, desafiando.

Essa pata estendeu-se, estendeu-se, e subtil, como n’um jogo de prendas, deu uma sapatadasita no craneo da femea, retrahindo-se logo. Mas a gatinha parecia querer dormir e aninhou-se de novo no seu fundo de copa, onde a sêda punha a alvura cariciosa de uma alcova.