A gatarrona mãi toda insensivel ás festas, muda e impertigada como a dona da casa, era tão indolente como esta; e ao lado de D. Consuelo, sobre uma almofada de sêda, dormia dias inteiros, com uma colleira escarlate de fechos de ouro. Só ella, com a sua idade circumspecta e a sua molleza freiratica, dizia bem no salão de côres austeras em que D. Consuelo recebia os padres de S. Luiz e as irmãs do Coração de Maria, e levava as tardes sepulta na voltaire, toda amortalhada em velludo negro, touca de rendas pretas e as Meditações sobre o divino Jesú nos joelhos. De fórma que, um domingo determinou expulsar do santuario os patifes ruidosos, o que alegrou Fernanda vivamente: ia emfim ser toda d’aquelles garotinhos gentis e ferozes.

Era domingo, luminoso dia do primavera germinadora e florida, sonoro de rumores de gente festiva e cortado de vôos d’andorinhas meigas, que entravam a construir os ninhos pelas cimalhas das aguas-furtadas. Fernanda não quiz almoçar sem que os bichos viessem; conseguira dois lugares á mesa para elles; a gatinha ficar-lhe-hia quasi no collo, o gato mais longe, com um pratinho de porcellana provido dos melhores bocados. E que nome lhes poriam? Foi um meditar profundo sobre o problema.

Houvera em casa uma gata franceza, que morrera de velha e tinha um rabo branco caricioso—A Blanche. Pobre querida! Estava sepultada no jardim entre duas roseiras de todo o anno. E Fernanda recordava o seu modo subtil de se roçar pelas saias á comida, com o rhum-rhum dolente de uma beata offerecendo rezas, e o seu comer dificultoso de desdentada, rejeitando os ossos das perdizes e preferindo bolos fôfos, de recheios aromaticos, que ao almoço se serviam em pilhas, sobre cabasinhos de rosas, de velho Sèvres rocócó. E apparecera morta uma manhã de inverno, ao pé do lago. A gatinha devia chamar-se Blanche tambem, um nome da côr do seu vestido setinoso de princeza. Mas o Arthur, o garoto mais velho da casa, era de opinião diversa. Segundo elle, deviam baptisar-se os dois bébés, na banheira de marmore do rez-do-chão, sendo elle padrinho, mais o trintanario.

Mergulhariam os moiritos na banheira cheia de uma agua perfumada, ao som de rezas que só elle sabia, e de umas bengaladas valentes, ao primeiro berro que soltassem os neophytos, na banheira trasvasando. Depois do que, seria servido vinho aos pequenos, com applicação de pancadaria supplementar e guizadas ao pescoço—o que os tornaria fortes, avisados e aptos á comprehensão da vida e á constancia na lucta com as arganassas, que por acaso encontrassem nas excursões á despensa ou ás cocheiras da casa. Fernanda magoou-se com semelhantes opiniões, e quasi chorou pelos pobres innocentes que lhe mandava, do fundo do seu conforto beato e egoista, a boa tia Consuelo. Quando elles chegaram n’um cabaz de vimes, com laços ao pescoço e um pouco assustados da jornada, Fernanda não sabia que fazer para melhor exprimir a sua satisfação: era um côro de risos candidos e gorgeios innocentes; ia do pai para os joelhos da mamã, e esquecida já das maldades do Arthur passava-lhe os braços ao pescoço, cobrindo-lhe a face de beijos. Quizera para os dois gatinhos todo um palacio de sêda e gulodices, com o seu trem completo de cozinha, a longa bateria de peças de folha reluzentes e pequenas, fogões installados nos respectivos poiaes de madeira pintada, um serviço de porcelana fina, mobilia e carruagens elegantemente forradas a pedaços de setim de todas as côres, lavatorios e leitos, uma multidão de objectos microscopicamente construidos, que a paciencia da mamã adquirira, durante uma semana inteira de investigações, pelos armazens de quinquilharias da cidade. E a installação, que encantadora e que trabalhosa!...

A gatinha saltava desdenhosamente por cima das ottomanas e das causeuses delicadas, atirava com lavatorios e caçarolas, fazendo com a cauda desabar os guarda-louças tão ricamente providos. Quanto ao gato, foi impossivel mettel-o no kiosque dourado onde tantas preciosidades de mobilia se accumulavam. Ao primeiro esforço de Fernanda para o fazer entrar, assoprou raivoso, desembainhando unhas ameaçadoras contra a dôce protectora, que tão generosamente lhe offertára opulencia e conforto. E apenas o largaram no parquet, desatou a fugir pelas salas como um desalmado evadido. Em breve, Fernanda se persuadiu da impossibilidade completa de fazer caseiro o ménage.

E a pomposa e pequenina residencia passou a ser habitada por uma familia extraordinaria de bonecas de todos os tamanhos. A paixão do loiro amorzinho pelos dois maus animaes vertia agora o fel de uma ingratidão profunda. Ella não podia comprehender realmente, o desdem soberano dos gatos pelas magnificas provas de amor que lhes dera, no seu enthusiasmo de pequena caprichosa. E nos primeiros dias, os seus afagos para o gatinho orvalhavam-se das lagrimas d’um resentimento angelico e mal contido. Elles, os dois patifes, adquiriam pouco a pouco a sua franca e leviana liberdade; ao almoço e ao jantar subiam pelos vestidos e pela toalha, reclamando em voz alta o seu talher de pessoas de familia; atacavam sem a menor ceremonia os pratos que apanhavam sem guarda no aparador e nas bancas da cozinha; iam miar em côro por baixo das alcofas da carne crua e dos cabazes providos de peixe fresco; escamugiam-se surrateiramente para a despensa a encherem os bandulhos de quanto apanhavam de succulento, e umas vezes por outras, nas noites humidas e chuvosas, tinham o pessimo costume de afiar as unhas nos mognos polidos e nos estofos matizados dos gabinetes, sulcando e rasgando, sem preferencia e sem attenção de preços. Fernanda ria com elles e achava-os de uma graça captivante. E a todo o transe defendia-lhes as velhacadas, orgulhosa de soffrer pelos que amava com tamanha loucura.

Chegou o dia dos annos do Arthur—uma quinta-feira, em maio. Determinaram ir passar o dia á quinta, em Carriche.

Ia a boa dama Consuelo, as pequenas Magalhães, as primas Lopes e todo o mundo infantil da familia. Na vespera, disfarçadamente, em quanto o Arthur estava no collegio, Fernanda sahira com a mamã á compra de presentes para o dia seguinte. Tinha um mundo de projectos na mente: torres ideaes de cartonagem com sinos dourados e portaes de columnellos; jardins de cascatas surprehendentes, grandes exercitos de chumbo formados em ordem de ataque com baterias de latão; as arcas de Noé em que reside um mundo inteiro de bugigangas coloridas; esquadras empavezadas de flammulas com almirantes de estanho, commandando tripolações de madeira suissa; pequeninos theatros com figuras de verniz e paizagens ternas de Nuremberg; tudo quanto a phantasia póde realisar de pueril e caprichoso e quanto uma criança póde exigir, na incoherencia dos seus devaneios côr de rosa.

A mamã aconselhava um cabazinho de dôces frescos, do Baltresqui. Era mais delicado! Mas Fernanda tinha os olhos n’uma cathedral de madeira branca, elegantissima de cupulas e rendilhados, por cujo portico profundo e alto na sua escadaria de balaustres gothicos, uma multidão de fieis ia subindo, collada com gomma arabica.

—Que lindo, mamã, que lindo! dizia ella, pousando devotamente as duas mãosinhas toute roses, no magnifico zimborio com ventanas de espelho e ornatos de cartão representando faunos engalfinhados. E imperiosa, impertigada nos tacões dourados dos seus sapatinhos de verniz, declarou que escolhera, e que o Arthur deveria ficar muito encantado de um presente de tal modo original. A cathedral foi conduzida na carruagem com extremas cautelas, ao lado de um chapéo que para a pequenina a mamã escolhera na Emilia d’Abreu. Recolheram cedo a casa, antes do pequeno voltar, e á noite n’um gabinete fechado e sobre a larga mesa coberta de tapete, os presentes da familia e dos amigos do Arthurinho ostentavam, n’um soberbo bazar, as suas fórmas pittorescas e os seus matizes originaes. Eram os cabazes de camelias vermelhas bordadas de heras e pequeninos bouquets de violetas de Parma; as bocetas de côres vivas e esmaltes garridos, turgidas de doçarias caras; grupos de porcelana e terre cuite n’uma infinidade de posições ingenuas ou garotas. A Laura deixára a sua photographia risonha de cherubim pensativo, um rostinho dôce coroado de uma bella cabelleira loira, em anneis. E os amigos todos, o Alfredo, o José e os dois gemeos Nogueiras, tinham vindo trazer uma lembrança amavel, chicotes, capacetes, cavallos de molas, magicos em caixas, o diabo! Ao centro a cathedral de Fernanda com as suas torres severas, de um gothico amaneirado, e o seu zimborio de columnellos flexuosos, erguia-se magestosamente no meio da cidade de camelias e violetas, e das pinturas vívidas dos cofres, cheios de rebuçados e pastilhas e aromatisados das mais finas essencias.