Foram vêr á despensa. Tinham bebido o vinho, e o pote estava em pedaços. Entraram a chorar. Veio a comadre.

—Que é lá isso de prantos n’esta casa? disse ella, afflicta. Contaram-lhe.

—Pois eu lhes juro, que as bruxas nunca mais os perseguem. Sei as orações de as afugentar.

De facto, nunca mais tornaram, nem bruxas nem boas vindimas, nem potes de vinho.

Tal foi a idéa da comadre Monica.

Historia de Dois Patifes

Toda a manhã, Fernanda andou impaciente pelas casas, esperando os gatinhos. Ao acordar, fôra aquella a sua primeira idéa—os dois pequeninos animaes cheios de viveza e graça, em cujos olhos ria uma innocencia travêssa e dôce. Havia tempos que a tia Consuelo lh’os promettera, quando fossem crescidinhos. E a cada visita á boa senhora, Fernanda levava horas e horas com elles, brancos de neve, uma finura de pennugem que acariciava a pelle, as duas cabecinhas inquietas com orelhas que se fitavam petulantemente, a cada ruido do gabinete. Fernanda tinha uma paixão por aquelles dois diabitos brancos que levavam os dias, ou sugando as tetas da mãi, grande gata de pello fulvo e pupillas glaucas, ou rebolando no tapete os corpinhos electricos, n’uma embriaguez de vida que fazia prazer. O gato era o mais leviano, com as suas patinhas fôfas e os dedos rosados na planta, de que as unhas transparentes e curvas sahiam desembainhadas, nos momentos de irritação, se lhe pisavam a cauda. Tinha os olhos azues, cheios de fibrilhas inquietas mais escuras, uma ingenuidade selvagem no encarar, fitando as orelhas velludinosas, em que parecia residir toda a petulancia d’essa cabeça infantil. O focinho côr de rosa, com barbicas alvoroçadas sorria um pouco, mesmo quando assanhado, e das gengivas vermelhas e humidas, os dentinhos em serra, agudos e pequenos, resahiam gulosos, desafiando a gente. A gatinha affectava mais seriedade e mais coquetterie, uma ambição contida de se fazer senhora e uma sciencia complicada em se fazer amar do macho. Nunca era a primeira no ataque, e zangava-se mal presentia uma offensa. Á comida exigia os melhores pedaços, rosnando sôfrega, com a pata erriçada de unhitas curvas, contra o primeiro que lhe chegasse ao prato. Dormitava muito, como a mãi; ás vezes o irmãosito chegava-se, cauteloso, estendendo as patas e movendo vagarosamente a cauda, as pupillas cheias de um clarão de patifaria. Com um movimento destro erguia uma pata—zás!—no ventre da sua companheira, que entreabria preguiçosamente os olhos, immovel, com o focinho enterrado na penugem do ventre. Esta indifferença benevola, arrojava o gaillard do gatinho a maiores garotices. Chegava-se então muito meigo, unhas escondidas, o dorso alto, as orelhas chatas e deitadas para traz. Com as duas patas da frente, cingia o pescoço da pequenina, e entrava a morder-lhe repetidamente o peito, os labios, a pontinha das orelhas, em quanto com as unhas trazeiras lhe raspava voluptuosamente o ventre e as côxas, provocando cocegas.

Ella estremecia, toda percorrida de um gozo intimo e alongando o corpo para traz; e de ventre para o ar ficava immovel, espreitando, com a bocca entreaberta e os olhitos reluzentes de uma caustica lasciva, de bacchante núa. Abraçavam-se então, luctando, as caudas em espiras; armavam saltos por cima dos moveis, iam esconder-se nas franjas espessas dos fauteils muito baixos, e suspendendo-se em cacho dos pés esculpidos das consoles encrustadas de metal e madre-perola, sacudiam-se, balançando os corpos como dois gymnastas em exercicios de destreza. A tia Consuelo, impacientava-se já de semelhantes correrias. Descobrira uma nodoa no carmezim do divan da sala e achára extirpado a unhadas o ventre de uma antiga bergère preciosa, do tempo da senhora infanta D. Anna. Além d’isso, a estroinice dos brutinhos punha uma nota impertinente na monotonia somnolenta da casa, antiga casa cheia de silencio e conforto, onde o piano dormia mezes inteiros e os moveis do salão alinhavam, como collegiaes em revista, os seus bôjos vestidos em camisas de bretanha.