—Vamos a beber-lhe o vinho?—O Canellas pulou:—com mil raios!

—Vamos.

—Vamos a partir-lhe o pote?

—Vamos.

O desgraçado ergueu as mãos desesperado e murmurou chorosamente:

—Ai a minha desgraça! Ai o meu rico vinho tinto!


Alta noite, a Luiza enrolada sempre no seu chale, rezando sempre as suas contas ao canto do lar, viu romper pela casa dentro o Canellas esbaforido, sem peixes, sem anzoes, sem sapatos, sem chapéo, sem manta, alagado em suor, trémulo de medo e morto de cansaço. Contou tudo á Luiza:

—E vai, ouvi dizer: vamos a beber-lhe o vinho? Vamos. Partimos-lhe o pote? Partimos. Tu sentiste alguma cousa, mulher? A Luiza persignava-se, com os olhos em alvo.

—Eu nada, disse ella. Não senti nada: uma cousa assim!...