Alma perdida

ALMA PERDIDA

Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguem que se finou!
Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dôr, suavemente...
Talvez sejas a alma, alma doente
D'alguem que quiz amar e nunca amou!
Toda a noite choraste... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguem é mais triste do que nós!
Contaste tanta coisa á noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!...

De joelhos

DE JOELHOS

«Bendita seja a Mãe que te gerou.»
Bendito o leite que te fez crescer.
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama, p'ra te adormecer!
Bendita essa canção que acalentou
Da tua vida o dôce alvorecer...
Bendita seja a lua que inundou
De luz, a terra, só para te vêr...
Benditos sejam todos que te amarem,
As que em volta de ti ajoelharem,
Numa grande paixão fervente e louca!
E se mais que eu, um dia, te quiser
Alguem, bendita seja essa Mulher,
Bendito seja o beijo dessa bôca!!

Languidez

LANGUIDEZ

Tardes da minha terra, dôce encanto,
Tardes duma puresa d'açucenas,
Tardes de sonho, as tardes de novenas,
Tardes de Portugal, as tardes d'Anto.
Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!...
Horas benditas, leves como pênas,
Horas de fumo e cinza, horas serênas,
Minhas horas de dôr em que eu sou santo!
Fecho as palpebras rôxas, quasi pretas,
Que poisam sôbre duas violetas,
Azas leves cançadas de voar...
E a minha bôca tem uns beijos mudos...
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar...

Para quê?!