—Foi elle quem mandou dar para baixo no povo, á porta do Passeio Publico.
—E quem matou o projecto da avenida para o Campo Grande.
—E quem levantou a questão dos muros...
—E quem embirra com as grades...
—E quem diz...
—Bolas, meus amigos! bolas!—exclama o auctor do Diccionario.—Essas obras são de outros Joões Fernandes; não confundam a minha com as dos meus collegas. Todos somos de grande força; mas eu não trato{318} as cousas tanto em absoluto. É verdade que não deixei ir o Polyphemo com um só olho, no artigo orçamento; que deixei escorregar a mão, ás vezes sem querer, no modo por que tratei os meus amigos medicos, a medicina e a botica, que Deus afaste da minha porta por todos os seculos dos seculos, amen; que escovei soffrivelmente a poesia e a politica; e que fui assás sincero com as mulheres... Porém nada d'isso vos auctorisa para me impingirdes filhos alheios. Que se aguente cada João Fernandes d'esta terra com os seus feitos. O meu é este. Vanglorio-me d'elle; e, attendendo a que não convem alargar mais o cavaco, declaro-o a ultima palavra da sciencia, e recommendo-vos que o elogieis com alma, se não quizerdes fazer má figura passando por ignorantes em materia de gosto.
No fim d'este discurso recrudesce o enthusiasmo, repetem-se os vivas e quebram-se á pedrada as vidraças de todos os livreiros{319} que não teem o Diccionario á venda. O auctor, enternecido com essas demonstrações, diz modestamente, começando a fazer a barba a si:
—Já vêem que não sou dos taes Joões Fernandes de tres ao vintem...
—Não—acodem os fanatisados;—é dos de pataco!
—Macanjo.—rosna um patife que não gostou do livro.