—Sou bastante generoso para não denunciar ninguem!

Na cadeia da Relação, o capitão Leitão mostrou-se por vezes excitadissimo e nunca cessou de solicitar do respectivo director que lhe consentisse vêr o filho—um rapazito de quatorze annos que ia alli levar-lhe a comida. No dia 6 de fevereiro á tarde, satisfizeram-lhe o desejo. E elle então, ao avistar a creança, ajoelhou, exclamando:

—Perdoa-me, assassinei-te!...

O tenente Coelho, esse, apresentou-se no dia 1 de fevereiro, no quartel general, aqui entregou a sua espada ao sub-chefe de estado-maior, que lhe deu voz de prisão e foi em seguida conduzido para o castello da Foz, onde ficou custodiado á vista.

O alferes Malheiro, ao que depois se affirmou, tendo sido derrubado na rua de Santo Antonio pelos populares que fugiam das descargas da guarda municipal, acolheu-se á casa d'um amigo, d'onde mais tarde passou para uma quinta do Douro e d'aqui para a Povoa do Varzim. Na Povoa embarcou n'uma canoa de pesca para a Galliza e de Vigo seguiu mais tarde para a America do Sul.

A maledicencia não poupou nenhum d'esses tres homens. Vendo-os derrotados, entreteve-se a assacar-lhes[{126}] varias infamias, como se fosse necessario cobril-os de opprobrio para mais facil apotheose dos vencedores. Os jornaes da epocha, porém, registam diversos documentos que ao mesmo passo que evidenciam a qualidade dos manejos tecidos para denegrir a situação dos tres officiaes, demonstram egualmente que todos elles investiram de frente contra as insidias e calumnias espalhadas nos orgãos da monarchia. Vejamos, em primeiro logar, esta carta do capitão Leitão publicada, já depois de elle ter sido julgado e condemnado em conselho de guerra:

«Sr. redactor do «Seculo»:—Informa o Dia que minha esposa supplicára do general Scarnichia commandante da 3.ª divisão militar, o auxilio da rainha de Portugal em seu favor e que a soberana ia, com effeito, conceder-lh'o bem como a meus dois filhos. Achando-me eu separado ha annos da senhora de quem se trata, cumpre-me declarar em vista de tal informação, que nem sou solidario com os seus actos nem d'elles assumo a menor responsabilidade. Cumpre-me outrosim accrescentar quanto a meus filhos que a situação d'estes é perfeitamente independente da de minha esposa e se acham felizmente ao abrigo da regia philantropia. Lamentando que um tal facto me obrigasse a vir á imprensa desvendar um recanto da minha vida intima, etc.—Antonio do Amaral Leitão

Trechos d'uma carta do tenente Coelho:

«Sr. redactor do «Diario Popular»:—Tive por acaso conhecimento de que um jornal de Lisboa, no furor de fazer reportage, a proposito dos lamentaveis successos do dia 31 de janeiro se refere a um incidente da minha vida de estudante, deturpando-o e commentando-o de um modo insultante[{127}] para mim. Indigna-me a cobardia; porque é facil e pouco perigoso insultar um preso que tem a absoluta impossibilidade de desforçar-se. Não fui eu o unico a quem aconteceu aquelle incidente, mas fui o unico que por elle respondi, sendo absolvido por unanimidade no conselho de guerra respectivo. Outros mais felizes obtiveram as suas cartas apesar de identicos incidentes.