Isto... como vae?

(Isto era a situação da população lisbonense, o estado da opinião publica após o famoso decreto de morte civil).

O tenente-coronel Dias hesitou um momento antes de responder, mas, quando se decidiu a fazel-o, disse peremptoriamente ao monarcha:

—Meu senhor, isto vae muito mal!...

D. Carlos encolheu os hombros n'um significativo desdem e foi falar ao primeiro ministro que, dir-se-hia, esfregava as mãos de contente pelo que a publicação do tal decreto representava de força do ministerio e de provocação altiva, ironica, de desafio insolente á ralé insubordinada. Não sabemos o teor d'essa conversa; mas é de crer que o monarcha houvesse interrogado o dictador de modo identico ao do tenente-coronel Dias, e que o dictador, emphatico, lhe tivesse respondido de modo differente do do mesmo tenente-coronel. O primeiro ministro, n'essa altura, ainda desprezava a agitação da escumalha, considerando-a incapaz de ferir o poder real, que elle procurava engrandecer.

D'ahi a instantes, a familia real sahiu da estação do Sul e Sueste e tomou logar n'uma carruagem descoberta. A multidão formava alas pouco compactas para a ver passar. Em frente das arcadas do ministerio da fazenda, um homem que até então se conservara immovel e sereno do lado da Praça do Commercio, olhou para um outro que se especára mais aquem e transmittiu-lhe um imperceptivel signal de cabeça. O segundo fez um gesto affirmativo e o primeiro, saltando para o meio da rua, desembaraçou-se do varino que tinha dependurado dos hombros e, apontando uma carabina á capota da carruagem real, desfechou-a. Esse homem, o professor Buiça, fizera tudo isso n'um relampago. O rei Carlos agonisou... Quasi ao mesmo tempo, a carruagem real era atacada de flanco pelo outro homem empunhando uma pistola Browning. Alfredo Costa, correndo por diante d'um antigo kiosque da Praça do Commercio, conseguira alcançal-a na volta para a rua do Arsenal. O principe Luiz Filippe ergueu meio corpo no vehiculo e, tambem de pistola em punho, tentou attingir o regicida. Mas feriram-n'o de morte como ao rei Carlos. A rainha Amelia, vendo a curta distancia da carruagem um terceiro individuo em attitude hostil, quiz sacudil-o, ameaçando-o com o ramo de flores que tinha na mão, mas n'esse momento o panico já era enorme e, dentro de segundos, o Terreiro do Paço transformava-se em verdadeiro campo de batalha, onde os defensores do regimen disparavam á tôa e a maioria dos populares fugia em diversas direcções, confusos, medrosos, sem atinar com a importancia do facto que acabavam de presenciar.

O resto é sabido. A carruagem real, depois de ter parado uns momentos, hesitante, seguiu apressadamente para o Arsenal, emquanto a policia e uns officiaes do exercito, n'uma furia extranha de exterminar revolucionarios, espadeiravam, disparavam tiros e cevavam um odio inconcebivel não só sobre os dois homens que realmente tinham atacado a carruagem real, como sobre creaturas inoffensivas, que, por curiosidade, haviam comparecido ao desembarque do rei e da sua familia. N'esse lapso de tempo decorrido entre a morte do monarcha e a installação dos dois corpos, o d'elle e o do filho, no Arsenal da Marinha, a policia commetteu brutalidades sem nome. D'uma d'ellas resultou a morte de Alfredo Costa e d'um modesto empregado de ourives, João Sabino da Costa. Alfredo Costa vivia ainda quando o transportaram para a esquadra da Camara Municipal. Dentro d'essa mesma esquadra, a piedade de um guarda impediu que uma duzia de selvagens massacrasse varios populares capturados no momento do regicidio e que, repetimos, não tinham responsabilidades effectivas na execução do monarcha dos adeantamentos.

[CAPITULO VIII]

[Os regicidas calcularam que a Revolução rebentaria imediatamente ao seu acto]

É natural que o leitor d'estas narrativas, chegado a este ponto da chacina de 1 de fevereiro, deseje saber os nomes dos tres companheiros de Buiça e Costa. O mysterio tem attractivos poderosissimos e não é facil contentar em absoluto o publico apenas com a promessa vaga de que o futuro desvendará o que o presente não permitte conhecer em todos os seus pormenores.