N'este caso especial, porém, o mysterio não pode ser, não deve ser profundado. De resto, mesmo que o quizessemos fazer por um impulso de furiosa reportage, esbarravamos com esta muralha impenetravel: o segredo dos conspiradores. A quem não andou implicado em qualquer movimento revolucionario é difficil affirmar que as cousas se passaram de tal ou tal modo. Ha naturalmente quem possua informações precisas sobre o regicidio; entre o muito de phantastico e de tendencioso que a esse respeito se disse na imprensa, ha, evidentemente, uma nesga da verdade; mas d'ahi a garantir a narrativa completa do facto vae uma distancia consideravel, que poucos ousariam transpôr.
Durante muito tempo disse-se que o individuo que a rainha Amelia, no instante da tragedia, sacudira com um ramo de flôres era um dos filhos do visconde da Ribeira Brava. Lembra-nos perfeitamente que, tendo recebido n'essa tarde ordem de ir ao Terreiro do Paço e ao Arsenal verificar a exactidão das noticias alarmantes que o telephone transmittira á redacção do Seculo (onde trabalhavamos), o primeiro pormenor que alcançámos, repetido por meia duzia de pessoas, foi o de que um dos regicidas era o sr. Francisco Heredia. Um popular asseverava até que esse sportsman é que disparara primeiro que qualquer outro uma carabina sobre a carruagem real. Mais tarde, julgando-se insubsistente esse boato malevolo, engendrou-se um outro: o de que o sr. Francisco Heredia emprestara um varino ao professor Buiça e lhe offerecera a famosa arma, instrumento da execução. A propria policia, orientada no mesmo sentido, fez varias tentativas para enredar no regicidio aquelle nome tão citado pelos reaccionarios á bocca pequena. E mais do que uma vez pelas redacções dos jornaes se affirmou discretamente que o juiz de instrucção criminal passara um mandato de captura contra o pretendido regicida. O sr. Alpoim, referindo-se ao caso, commenta-o deste modo:
«Nenhum dos tres filhos do sr. visconde da Ribeira Brava, nenhum, tomára parte no movimento; nenhum se inscrevera; seu pae não os implicara em qualquer facto revolucionario; sobre nenhum d'elles incidia qualquer responsabilidade, como incidia sobre o tenente Bernardo d'Alpoim que, de combinação com seu pae, collaboraria n'um dos factos mais graves da Revolução. Valentissimos, lealissimos, mas casados e com filhos, seu pae sequestrara-os a todas as responsabilidades. Pois foi um d'esses bons, admiraveis rapazes, que a gente do Paço e a escoria clerical escolheram para alvo dos seus odios e accusações! Chegou-se a comprar policias para falarem no seu nome; e o sr. visconde da Ribeira Brava procurou o ultimo juiz de Instrucção Criminal para lhe communicar factos gravissimos a tal respeito!
«Aconteceu que o sr. D. Francisco Heredia, á hora em que o attentado se commettia, estava com pessoas respeitabilissimas que depozeram. E—o que ninguem sabe!—a pessoa mais indignada foi a rainha sr.ª D. Amelia, que recebeu sempre no Paço, com todo o affecto, o sr. D. Francisco e sua esposa. Ao chefe dissidente contou aquella senhora que era uma infamia semelhante accusação e que ella propria dissera ao juiz de Instrucção Criminal que, conhecendo muito bem o sr. D. Francisco Heredia, estava prompta a affirmar que não se achara entre os que assaltaram o coche real e sobre elle dispararam. Garantimos esta affirmação, estas palavras da rainha; e, comtudo, ellas não desarmaram gente da côrte e politicos que tinham todo o empenho em envolver o nome d'um dissidente, ou de pessoa que lhe fosse proxima, no tragico acontecimento do Terreiro do Paço!»
Luz d'Almeida Chefe da Carbonaria
Mas não foi só o sr. Francisco Heredia que a opinião desvairada apontou como tendo tomado parte no regicidio. Na tarde de 1 de fevereiro de 1908, a policia prendeu, como suspeitos, varios individuos, entre elles um de nacionalidade hespanhola. Durante oito dias, approximadamente, teve-os incommunicaveis no governo civil e findo esse periodo de clausura libertou-os. O hespanhol sahiu logo de Lisboa e foi para San Sebastian. Passados mezes, quando a policia voltou a proceder a investigações minuciosas sobre a morte do rei Carlos e do principe Luiz Filippe, teve denuncia de que o hespanhol realmente atirára sobre um e outro, e um dos agentes do juiz de instrucção encaminhou-se para o paiz visinho na peugada do supposto companheiro do professor Buiça. Baldado empenho: o hespanhol já não vivia em San Sebastian e o seu rasto perdera-se completamente. Seria, com effeito, esse homem o tal que a rainha Amelia viu atirar sobre o marido e o filho e de quem, d'ahi a semanas, fez um croquis, fixando-o bem nos seus traços physionomicos? Não é possivel dizel-o com segurança. Pessoas que se nos affiguram bem informadas desmentem redondamente esse boato, como antes já tinham egualmente desmentido o que incidia sobre o sr. Francisco Heredia. E uma d'ellas declarou-nos terminantemente, assim que o juiz Silva Monteiro recomeçou a respectiva indagação policial:
—O X... que o juiz procura não é nem o filho do Visconde da Ribeira Brava nem o hespanhol de S. Carlos (o individuo suspeito fôra musico no nosso theatro lyrico). Tambem não é, como para ahi se disse, o estudante preso por causa da explosão na rua do Carrião, que ao tempo se achava escondido em Lisboa (Aquilino Ribeiro). Pelo pouco que sei do regicidio creio que o X... é outro rapaz bem differente d'esses tres, pouco conhecido como revolucionario, mas dispondo d'uma energia capaz de um acto semelhante á execução do monarcha dos adeantamentos.
«Cousa curiosa... Ia jurar que a policia teve em seu poder durante alguns mezes o X... do regicidio. Não por esse facto... Capturou-o, conservou-o por semanas incommunicavel, mas sem suspeitar sequer ao de leve que aferrolhava nos seus calabouços um authentico companheiro do Buiça e do Costa, o tal regicida de quem a rainha Amelia fez um croquis elucidativo. Eram cinco os do complot... Alfredo Costa, o professor Buiça, o X..., o Y... e o Z. Os dois primeiros morreram na tragedia; os restantes escaparam...»
Vamos concluir este capitulo da historia contemporanea, mas antes faremos referencia a uma conversa trocada entre o professor Buiça e Alfredo Costa á 1 e 30 da tarde de 1 de fevereiro de 1908. Foi no Café do Gelo, a conhecida cervejaria que desde tempos immemoraveis tem servido a rendez-vous de estudantes e... estudantes de idéas avançadas.