Na vespera do regicidio, o professor Buiça, que tinha no café do Gelo o seu quartel-general de propaganda libertaria, apareceu ali, acompanhado de Alfredo Costa e d'um outro rapaz, e abancou a uma das mezas. Os tres conversaram demoradamente e ha todas as razões para crêr que só se separaram na manhã de 1. Á 1 e 30 da tarde d'esse dia, o professor Buiça e Alfredo Costa voltaram ao Gelo e tomaram logar n'uma das mezas da sala que deita para a rua do Principe. O professor Buiça bebeu uma cerveja e Alfredo Costa serviu-se d'uma omolette. Na mesma sala, alem dos dois revolucionarios, encontravam-se apenas o dr. Maximo Brou e um cadete da Escola do Exercito. O professor Buiça desenvolveu um plano qualquer ao seu companheiro e fel-o sem reservas, alto e bom som, completando a palavra com gestos expressivos:
—A carruagem avança, disse elle, a carroça apparece, esbarra e eu intervenho...
E ao affirmar a sua intervenção, o professor Buiça moveu os dois braços de modo significativo, como se mettesse uma espingarda á cara.
—E nós? perguntou-lhe Alfredo Costa... O que fazemos?
—Vocês... procederão como a opportunidade indicar.
O outro calou-se e continuou a comer a omolette. O professor Buiça piscou um olho ao dr. Maximo Brou e disse lentamente e ironico:
—Estamos aqui, estamos em Timor...
O dr. Maximo Brou procurou desfazer essa apprehensão, argumentando risonho com a belleza do dia—á 1 e 30 da tarde o sol inundava a cidade de luz faiscante—mas o professor Buiça insistiu na previsão e d'ahi a pouco um silencio melancholico amortalhou o ambiente. Ás 5 e tal, quando o dr. Maximo Brou soube no Martinho que o rei Carlos fôra alvejado no Terreiro do Paço, não poude conter-se, e recordando o que ouvira no Gelo, exclamou para uns amigos:
—O Buiça não errou a pontaria!...
E não errara, com effeito. Até ha pouco, ainda se asseverava convictamente que o primeiro regicida a atacar a carruagem real fôra o Alfredo Costa e que o Buiça se limitara a secundar-lhe o gesto. Não succedeu assim. O professor é que atirou primeiro, collocando-se no meio da rua e visando serenamente o pescoço do rei Carlos que emergia da capota do vehiculo. Depois, a policia postada do lado das arcadas do ministerio da fazenda disparou sobre elle varios tiros de revolver, emquanto mais adiante Alfredo Costa investia contra o lado direito da carruagem.