Não admira, por isso, que o Buiça ficasse na chronica da execução como o principal dos regicidas e que a opinião extrangeira o houvesse immediatamente collocado em plano superior ao dos seus companheiros. De resto, o nome do professor soou logo no dia 2 de fevereiro de modo bastante suggestivo para o grande publico. Por outro lado, a circumstancia de ter empunhado e desfechado uma carabina—arma que exige, na sua utilisação, sangue-frio extraordinario; e a aureola que um jornalista extrangeiro lhe teceu, evocando deante do seu cadaver na Morgue uma vida de apostolado e de martyrio, o sacrificio da familia, dos filhos votados á orphandade por amor da libertação do paiz; uma e outra coisa concorreram egualmente para que elle alcançasse uma supremacia de heroicidade que a historia futura indubitavelmente conservará.

Mas, pergunta-se agora: os cinco homens que na tarde de 1 de fevereiro se abalançaram ao regicidio tinham unicamente em mira supprimir um dos seus semelhantes—o rei ou o dictador? O que previam afinal sobre as consequencias do seu acto? Admittindo a hypothese de que pensavam apenas em matar o dictador (e essa hypothese, repetimos, é a mais verosimil) diremos que obedeciam naturalmente ao seguinte raciocinio:

O Directorio da Revolução

Attingido o primeiro ministro do rei Carlos, a policia, se os apanhasse em flagrante, procuraria logicamente poupar-lhes as existencias, esperançada em que qualquer d'elles, succumbindo cedo ou tarde ante o juiz investigador, revelaria todos os pormenores do complot. Apoz a suppressão de João Franco, rebentaria irremissivelmente a revolta e a Republica, uma vez triumphante, veria com olhos differentes dos dos monarchicos o arrojo e decisão de quem lhe facilitara a proclamação por uma maneira tão notavel. O proprio Buiça, como n'outro logar registamos, contava em que o degredo de Timor seria o mais provavel dos castigos que sobre elle incidiria no momento opportuno.

[CAPITULO IX]

[As iniciações na carbonaria augmentam consideravelmente]

Falemos da carbonaria, a grande organisação secreta que representou um papel importante na revolta de 4 e 5 de outubro. Tão importante, que d'ella sahiram todos os grupos de populares armados que auxiliaram o triumpho e um dos seus membros, da mais elevada cathegoria dentro da associação vinculou indelevelmente o nome e os feitos á implantação da Republica Portugueza.

A Carbonaria vinha de longe. Ha quem supponha, talvez, que ella nasceu propositadamente para a preparação do 28 de janeiro. Não é exacto. Em 1893 já se falava vagamente na existencia d'essa organisação e em 1894 um bom nucleo de estudantes conimbricenses realisava nas margens do Mondego, pela calada da noite, reuniões secretas com todo o cerimonial mysterioso das chamadas lojas revolucionarias, independentes da maçonaria regular.

A gréve do grelo, occorrida em Coimbra ahi por alturas de 1905-1906, revelou pela primeira vez ao publico o funccionamento da Carbonaria n'aquella cidade. Um jornal de Lisboa teve a idéa de entrevistar um dos estudantes mandados sahir de Coimbra por essa occasião e elle, com uma franqueza digna de nota, pôz a questão tal qual se lhe affigurava veridica e irrefutavel. Explicou a interferencia que a Carbonaria certamente poderia ter tido na agitação da população conimbricense, a frequencia das reuniões no Choupal, estrada da Beira e para os lados de Santa Clara, em recantos ignorados da policia e dos espiões monarchicos e explicou... outras coisas mais. No dia seguinte, um grupo de estudantes, alheio a essa organisação de insubmissos, apressou-se a desmentir na imprensa as affirmações d'esse seu collega. A Carbonaria sorriu, encolheu os hombros e o incidente não tardou a esquecer. E foi bom que assim succedesse, para não reavivar as diligencias policiaes effectuadas a proposito do apedrejamento proximo de Coimbra, do comboio que transportava a Lisboa o negociador d'um famigerado convenio financeiro.