Mais tarde, Lisboa vê despontar officialmente a Carbonaria para as luctas politicas, embalada pela fé ardente, a tenaz propaganda de Luz d'Almeida. É o momento em que a idéa inicial d'um nucleo forte, aguerrido, de acção immediata e directa contra as instituições monarchicas, apparece tomando corpo, adquirindo um relevo fóra do commum. Da maçonaria regular, a que Luz d'Almeida já dava, n'essa época, o melhor do seu esforço intelligente, sahe como que um filamento, que é o rastilho a applicar a uma bomba monumental. Esse filamento avulta, insinua-se vagarosamente na camada popular, contorce-se em evoluções cautelosas e discretas e a Associação Carbonaria Portugueza, até então uma sombra de resistencia nacional ao despotismo, á tyrannia do throno e dos governantes deshonestos, começa a illuminar o futuro, projectando sobre a treva que o envolve uma luz viva e inapagavel. A nova aggremiação secreta não tem ainda aquelle nome. Tem outro bem differente e não tarda a ser apadrinhada por um dos mais populares caudilhos republicanos.
Luz d'Almeida multiplica-se na conquista de elementos revolucionarios. E é curioso observar como esse homem calmo, d'uma calma que se confunde com a indolencia, desenvolve uma energia rara, uma actividade incomparavel. Conhecemol-o ha quinze annos, quando, ao lado d'um companheiro inseparavel, Ferreira Manso, elle se demorava todas as noites pelo Gelo em propaganda discreta, mas infatigavel. Sempre sereno, sempre conciso, vagaroso no andar, conservando no rosto uma impassibilidade caracteristica, o olhar incidindo certeiramente sobre o pensamento de qualquer dos seus interlocutores, Luz d'Almeida é o typo por excellencia do homem de acção que, uma vez lançado n'uma idéa de combate, vae direito ao fim sem hesitações, sem pressas inuteis, sem medo, sem precipitação. O gesto é sobrio e o vestuario tambem. Não faz alarde da sua decisão nem da sua palavra persuasiva. É methodico, correcto e cauteloso e, dentro d'essa couraça de apparente indifferença, esboça os planos mais audaciosos, resolve as situações as mais difficeis.
Na primeira phase da Carbonaria é com o dr. Antonio José d'Almeida que elle collabora assiduamente. A Floresta—o nome por que é então conhecida a poderosa aggremiação secreta—conta a breve trecho milhares de adeptos. Luz d'Almeida inicia-os dia a dia n'uma progressão assombrosa. De sorte que, antes do 28 de janeiro, elle e o dr. Antonio José d'Almeida adquirem a certeza absoluta de que é justificado confiar ao elemento popular uma boa parte da execução da revolta. E se é certo que na preparação d'aquelle movimento os grupos organisados de civis não apparecem ainda, como na preparação do 4 e 5 d'outubro, totalmente filiados na Carbonaria, não o é menos que a expansão da associação secreta já é tão vasta e tende tão nitidamente a augmentar que Luz d'Almeida, tres dias após o regicidio, inicia d'uma assentada cerca de cincoenta conjurados.
Por essa altura, ao lado do vigoroso e tenaz propagandista, figuram tambem dois revolucionarios de temperamento bem diverso, mas devotadissimos ambos á causa da liberdade: Machado dos Santos e o engenheiro Antonio Maria da Silva. As suas primeiras entrevistas realisam-se no jardim de S. Pedro d'Alcantara. É ahi que esses tres homens combinam de começo a forma de dar uma orientação absolutamente pratica á Carbonaria, formando entre si o Comité Alta Venda ou, melhor, a cabeça dirigente da organisação secreta. Depois passam a reunir em casa de Machado dos Santos, na rua José Estevão, casa que a policia assalta uma bella noite, disfarçando esse assalto com uma proeza de gatunos, e decidem levar aos quarteis a semente revolucionaria. É, repetimos, no periodo de maior agitação popular provocada pela politica nefasta do regimen monarchico. Rara é a noite em que se não inicia na Carbonaria uma duzia de adeptos pelo menos.
As iniciações divergem no cerimonial. Ha iniciações rigorosas, com todos os pormenores que constituem a bem dizer uma apertada fieira e tambem as ha pró forma, quando o adepto é sobejamente conhecido e inspira absuluta confiança. Em qualquer dos casos, porém, o iniciado é sujeito a um interrogatorio sobre as suas ideias politicas e aquillo de que se julga capaz de executar no momento propicio. Muitos d'elles affirmam desde logo as suas disposições para uma acção directa e individual; outros limitam-se a prometter concurso efficaz n'uma acção collectiva. A Carbonaria não repelle os que se declaram francamente incapazes d'um acto isolado, mas que juram—o juramento é obrigatorio para todos—auxiliar a communidade uma vez chegado o ensejo de luctar contra a monarchia ou a tyrannia.
Innocencio Camacho
Membro substituto do Directorio, em effectividade
Em dado momento surge uma contrariedade. Machado dos Santos, tendo escripto um artigo violento no Radical—jornal fundado e dirigido por Marinha de Campos—é, dado o seu posto de commissario naval, levado a conselho de guerra. Os juizes absolvem-no, mas como os inimigos dos revolucionarios não descansam, conseguem em breve afastal-o de Lisboa, desterrando-o para o ultramar. Esta contrariedade, porém, não impede que a Carbonaria progrida a olhos vistos. O comité Alta Venda decide abrir a primeira choça em Alcantara, bairro que sempre se evidenciou pelo grande amor á causa, bairro revolucionario por excellencia.
O comité recebe adhesões valiosas e a propaganda fructifica. Marinheiros, contra-mestres, cabos, sargentos, artifices, operarios, tudo acode á iniciação. Na conquista d'esses adeptos distinguem-se dois homens: o cabo Antonio (aliás sargento) e o artifice Carlos Freitas, que um zelo excepcional caracterisa. Este revolucionario toma sobre os hombros a ardua tarefa de desdobrar a choça de Alcantara e funda outra em Valle do Zebro, fornecendo ao comité um plano da escola de torpedos e varia documentação topographica.
Na choça d'Alcantara, a direcção superior da Carbonaria possue egualmente elementos civis de modelar actividade: entre muitos, Augusto Rodrigues, chefe de barraca, e José Madeira. Da choça de marinha sahem elementos de propaganda para junto dos quarteis de infantaria 2 e caçadores 2. É curiosa a forma por que esses elementos entram nos quarteis: