«A principio—reportamo-nos a uma informação do engenheiro Antonio Maria da Silva—cada carbonario tinha um primo no quartel; depois, conforme a necessidade de repetir as entradas, assim ia augmentando o numero de primos. Carbonario houve que, em pouco tempo, se tornou primo de toda a soldadesca. Naturalmente surgiram desconfianças por parte dos officiaes, e estas avolumaram-se com a coincidencia do apparecimento d'um folheto de Luz d'Almeida, intitulado «Dialogo entre um medico militar e um «magala», que foi largamente distribuido pelos elementos militares.»

Principiam então as buscas nos quarteis, buscas rigorosas que lançam o sobresalto no comité Alta Venda por causa da dureza do castigo que os iniciados certamente soffrem quando descobertos. Mas a dedicação dos carbonarios é tão grande que os maiores escolhos são transpostos com exito. Um exemplo: d'uma vez, o official de certo regimento revista a caixa d'um magala e o clarim que o acompanha na busca descobre o interessante folheto de Luz d'Almeida. Não hesita; disfarça como pode a comprometedora descoberta, apanha o folheto e occulta-o no instrumento... O clarim tambem era carbonario. E assim se consegue que esse Dialogo, d'uma propaganda utilissima, continue a espalhar pelas forças militares a ideia da revolta, apesar da campanha que os jornaes reaccionarios lhe movem sem treguas, apontando-o dia a dia ás attenções e á revindicta do governo monarchico.

Tratando-se da Carbonaria e da sua acção nos movimentos revolucionarios que caracterisam o ultimo periodo da vida monarchica portugueza, é necessario, antes de proseguirmos na narrativa que vimos fazendo, abrir um parenthesis que fixa um ponto de historia. Já dissemos que Coimbra antecedeu Lisboa na organisação d'essa força mysteriosa, que devia no 4 e 5 de outubro representar um papel importante. Podemos talvez falar do assumpto ainda com maior precisão. A Carbonaria de Coimbra teve o seu periodo aureo—digamos assim—de 1892 a 1894; a de Lisboa soltou os primeiros vagidos em 1897, fundada por Heliodoro Salgado, Benjamim José Rebello, Julio Dias, Sebastião Eugenio, José do Valle e varios democratas de Alcantara, que constituiam o nucleo de resistencia da chamada Aliança Revolucionaria. Pouco depois, a Alliança cedia o passo á loja irregular Obreiros do Futuro, installada na Rocha do Conde d'Obidos n'uma casa pertencente ao Credito Predial e que foi alugada a um dos carbonarios—a José do Valle se não estamos em erro—pelo sr. José Bello, ao tempo administrador das propriedades d'aquella companhia.

Essa loja irregular congregou durante largo tempo tudo o que Lisboa possuia n'essa occasião de elementos avançados, radicalissimos. A ella pertenceram os homens que mais tarde o juiz de instrucção criminal devia encarcerar como implicados em incidentes da politica interna (que o grande publico conheceu vagamente sob a designação de attentados anarchistas) e d'ella sahiram resoluções vigorosas cuja descoberta o ex-irmão Hoche d'essa epoca pagaria por bom preço. Facto digno de nota e que nos não cançaremos de repetir: a policia teve por vezes nas mãos, fechados a sete chaves, os meios de esclarecer certos mysterios, de pôr a nu intrincadas meadas revolucionarias. E não o fez porque? Porque, para alcançar exito completo, bastava-lhe concatenar habilmente certas informações. Tinha as informações, recebia denuncias que borboleteavam em volta da verdade, mas como não dispunha de sangue-frio e de esperteza sufficientes para as reunir, para as methodisar, disparatava horrivelmente e, disparatando no começo, ia até final, cega, estupida, laborando sempre no erro.

Occorre-nos n'este momento um incidente curioso a que é interessante fazer referencia. A policia um dia—e quem diz policia diz juiz de instrucção porque de certa altura por diante, desde que o Cyro e os seus superiores hierarchicos se convenceram de que a engrenagem revolucionaria não andava resumida aos tantos anarchistas que enfileiravam na famosa lista negra, as diligencias importantes passaram a ser encaminhadas com o auxilio de personagens de cathegoria—a policia um dia, insistimos, ouviu falar em que um homem de determinado appellido tomara parte saliente n'um facto que alarmou Lisboa. Não quiz saber de mais nada. Lançou-se na pista d'um rapaz, então ausente de Portugal, que usava do mesmo appellido, e forcejou imbecilmente por trazel-o ás mãos, sem procurar obter a confirmação absoluta da vaga denuncia. E tão cega, tão absorvida n'essa orientação errada, que ainda pouco antes de ser implantada a Republica tentava arrancar d'um prisioneiro politico a confissão de que esse tal rapaz realmente preponderara na execução do facto alludido... O appellido denunciado á policia era, effectivamente, o de um revolucionario ligado intimamente a esse facto; o rapaz que a policia perseguia, embora de appellido identico e amigo d'um outro que planeara o complot de exito indiscutivel, não entrara n'esse complot e só d'elle tivera conhecimento apoz a consumação do facto! É um pouco sybillino, mas é a verdade...

José Barbosa
Membro substituto do Directorio, em effectividade

Outro caso pittoresco revelador da argucia policial: Certo dia os espiões da Bastilha descobriram a existencia d'um deposito de bombas n'uma casa da Baixa. Prisões, buscas, etc., o juiz de instrucção poz em scena todo o reportorio do costume. D'ahi a quarenta e oito horas, o mesmo juiz, por effeito d'uma denuncia, mandou capturar um operario extrangeiro, que se suspeitava ter no predio onde morava alguns explosivos devidamente aprestados para uma acção decisiva. A noticia d'essa captura lançou o alarme nos carbonarios que ainda andavam á solta. A denuncia era fundada e d'esta vez a policia ia, indubitavelmente, realisar uma diligencia de absoluto successo. Tornava-se necessario afastar do predio suspeito as bombas comprometedoras. Um grupo de homens decididos tomou sobre os hombros tal encargo e, meia hora antes da policia passar a busca do estylo á casa do operario, as bombas em questão eram transportadas para logar mais seguro, atravessando impunemente diversas ruas de Lisboa.

No dia seguinte, o ex-irmão Hoche chamou á sua presença o prisioneiro e quasi lhe pediu desculpa de o ter incommodado sem motivo.

—Eu sempre me quiz parecer—disse o juiz ao operario anarchista—que o senhor nada tinha com este caso das bombas... Vá descançado e trate de não se misturar com os incidentes da nossa politica interna. A minha opinião a seu respeito está formada.