Na tarde de 15 de julho de 1910—em que se suppõe azado o ensejo de fazer rebentar a bomba—um grande nucleo de estudantes militares organisa uma reunião no Jardim Botanico. Um d'elles, delegado pelos restantes, recebe a incumbencia de ir falar ao almirante Candido dos Reis e declarar-lhe que estão todos promptos a iniciar o movimento, sahindo á rua ainda que isolados. Á primeira vista, talvez esta declaração pareça uma fanfarronada. Mas não é. Os estudantes revolucionarios teem parentes, paes, irmãos, etc., em todos os corpos da guarnição de Lisboa e não julgam crivel que a dedicação a um principio absurdo conduza ao sacrificio dos entes mais queridos... O delegado dos estudantes ao falar a Candido dos Reis nota que o almirante o escuta com as lagrimas nos olhos. Candido dos Reis ouve a declaração peremptoria e energica do delegado e depois exclama commovido:
—E assim se perde este povo! O que o senhor me diz agora, já m'o repetiram hoje dezenas de creaturas!...
É que o almirante não supporta em 15 de julho de 1910 o adiamento da revolta, como de resto o já não tinha supportado em 28 de janeiro de 1908. Convencido em absoluto de que a Revolução conta suficientes elementos para triumphar, não comprehende como, possuindo-se esses elementos, alguem hesite em lançar fogo ao rastilho da bomba...
Para a barraca organisada com estudantes militares, o revolucionario de elite que é Pinto de Lima contribue com uma grande parcella do seu esforço individual. Esse rapaz modesto, em cujo olhar scintilla a fé viva do propagandista incançavel, apparece-nos pela primeira vez collocado no plano que justamente lhe compete, por effeito de uma phrase elogiosa de João Chagas. O eminente publicista acaba de nos resumir por uma fórma brilhante, clara e suggestiva, o prologo do movimento de 4 e 5 de outubro, quando o seu olhar, fixando-se em Pinto de Lima, que ao nosso lado o escuta, toma uma expressão inilludivel. «É preciso salientar o papel que elle assumiu na revolução», diz-nos João Chagas, «trabalhou como poucos e a Republica deve-lhe muito».
Estas palavras na bocca d'um homem que, como João Chagas, as não prodigalisa sem sinceridade, são o melhor diploma a qualificar a actividade e a energia do valente rapaz. De resto, Pinto de Lima não exerceu apenas a sua acção junto dos estudantes militares. Conquistou para a boa causa dezenas de soldados, cabos e sargentos, entrou nos quarteis a arranjar proselytos e ainda na madrugada de 5 de outubro, quando entre as forças acampadas no Rocio lavrava a mais perigosa incerteza, elle por lá andou animando, encorajando e preparando o terreno para um desenlace victorioso.
Com o regresso de Machado Santos do ultramar, o aspecto e a fórma da propaganda da Carbonaria mudam por completo. Machado Santos substitue o engenheiro Antonio Maria da Silva nos trabalhos de Alcantara, disciplinando fortemente esses elementos, imprimindo-lhes toda a força da sua fé e da sua coragem. O numero de adhesões cresce de maneira assombrosa. Machado Santos faz prodigios; não descança, não trepida, não hesita. Chega a expôr-se... Auxiliam-no Augusto Rodrigues e Franklin Lamas. Após esse grandioso trabalho de Alcantara, examinados os relatorios, o comité Alta Venda conclue que esse bairro constitue um baluarte inexpugnavel. É tempo de lançar as vistas para outros pontos. Cabe a honra á infantaria 16. Machado Santos toma a seu cargo a tarefa, auxiliado por Antonio Meyrelles e o soldado José, hoje sargento por distincção, e faz comicios, verdadeiros comicios aos soldados, na Serra de Monsanto, a que assistem dezenas de homens de artilharia 1 e d'aquelle regimento. Em artilharia 1 é auxiliado por Armando Porphirio Rodrigues, enfermeiro do hospital inglez, onde o engenheiro Antonio Maria da Silva inicia o 2.º tenente José Carlos da Maia e varios outros. Em engenharia, a propaganda é feita pelo alfaiate Antonio dos Santos e pelo Oliveira dos bonnets. Em infantaria 5 é o cabo Benevides; na guarda-fiscal o soldado Domingues e, em todos os regimentos, a Carbonaria conta dentro em pouco com elementos de superior valia. O numero é assombroso e a qualidade é fina, excepcionalmente corajosa e dedicada.
Fóra de Lisboa a propaganda da Carbonaria tambem é intensissima. Malva do Valle, Carlos Amaro, Carlos Olavo, Pires de Carvalho, Manuel Alegre, Mario Malheiros e outros formam a Junta Carbonaria da Região Central que abrange Aveiro, Coimbra e Vizeu. Por esse tempo tambem já existem nucleos poderosos em Vianna do Castello, Braga e Villa Real de Traz-os-Montes, distinguindo-se n'este ultimo os revolucionarios Adelino Samardan e Antonio Granjo. Ao sul forma-se o nucleo de Evora, mercê dos esforços de Estevão Pimentel que não tarda a trocar o conforto da sua casa abastada pelas sensações e perigos do proselytismo; auxiliam-no n'esse trabalho insano de todas as horas o dr. Feliciano Caeiro e o sargento Andrade, um bravo do Cuamato. Em Beja, distingue-se na propaganda revolucionaria o dr. Pereira Coelho; no Algarve, em Faro, o tenente Stockler, o tenente Cerqueira e o dr. Gil. Mas, soccorramo-nos mais uma vez das informações do engenheiro Antonio Maria da Silva:
José Nunes
Auctor de diversas bombas explosivas
«Ainda no Norte é o caixeiro viajante Alvaro Mendes que estabelece 20 choças carbonarias, entre as quaes se destaca a do Entroncamento, por causa dos elementos da Escola Pratica de cavallaria que inicia. Em Santarem é o capitão de artilharia 3, Figueiredo, o agronomo Veiga e o dr. Queiroz, secretario geral do governo civil. É Malva do Valle quem impulsiona fortemente a Carbonaria Central. Em Estremoz é tambem Estevão Pimentel que inicia varios sargentos de cavallaria 3 que foram denunciados por um camarada, sendo transferidos. Em Lisboa organisa-se o comité dos correios e telegraphos, sendo meu auxiliar Amandio Junqueiro. Distingue-se o carbonario Lameiras, telegraphista, auxiliado por Balduino da Matta, Jacintho Henriques, Moysés Teixeira, Lorena Queiroz e Gualberto Pires. Merece tambem especial menção a barraca Garibaldi, onde trabalham Antonio Francisco dos Santos e o publicista Ribeiro de Carvalho, iniciando um numero consideravel de empregados dos electricos.»