Surge a difficultar a marcha do proselytismo o famoso caso de Cascaes. É esse caso que põe inesperadamente o juiz de instrucção criminal na pista dos trabalhos da Associação Carbonaria Portugueza; é elle egualmente que contribue para que na imprensa appareçam pela primeira vez vagas indicações sobre a constituição organica das associações secretas. Vem a proposito pormenorisal-o.
[CAPITULO XI]
[Os dynamitistas preparam a «artilharia civil»]
O caso de Cascaes veiu a publico em meiados de outubro de 1909. Um incidente sem importancia fez descobrir o cadaver de Nunes Pedro sobre uns rochedos da Bocca do Inferno. Ao principio suppôz-se que esse homem se suicidara, atirando-se de grande altura; mas a breve trecho percebeu-se que o cadaver apresentava signaes d'uma aggressão violenta e as auctoridades locaes apressaram-se a communicar a descoberta ao juizo de instrucção criminal. Por outro lado, o então administrador do concelho de Cascaes, sr. Fernando Castello Branco, tendo encontrado no fato do morto uns papeis que alludiam ás relações da victima com varios carbonarios, metteu-se logo no comboio e veiu a Lisboa conferenciar com a policia. Horas depois, a policia ia de Lisboa a Cascaes investigar o caso e iniciava uma serie de prisões, tendentes a demonstrar que a morte do Nunes Pedro fôra planeada e executada por uma terrivel associação secreta inexoravel para todos os que a atraiçoavam.
A primeira d'essas prisões, a do empregado do commercio Domingos Guimarães, foi effectuada em Villar Formoso por um agente da policia repressiva da emigração clandestina. Uma vez realisada, espalhou-se: 1.º que o Nunes Pedro estava implicado no desapparecimento de cartuchame armazenado na Alfandega de Lisboa; 2.º que esse desapparecimento fôra provocado por uma indicação de varios republicanos, que assim se preparavam e armavam para um proximo movimento revolucionario; 3.º que, apenas descoberta a falta de cartuchame, esses republicanos, tinham compellido o Nunes Pedro a fugir para Badajoz, e que elle dias depois de se ter acoitado n'essa cidade hespanhola escrevera duas cartas uma a Domingos Guimarães e outra ao armeiro Heitor Ferreira, pedindo-lhes dinheiro e ameaçando-os de denunciar á policia portugueza a falta do cartuchame; 4.º que, em face d'essa ameaça, o Domingos Guimarães partira para Badajoz a socegar o Nunes Pedro, que o trouxera a Lisboa disposto a fazel-o embarcar para a Africa, mas que depois de se encontrarem os dois na capital, o Nunes Pedro renovara a ameaça, decidindo então os carbonarios supprimil-o.
Isto, repetimos, foi o que se espalhou ou melhor foi o que a policia espalhou, mal teve nas mãos o empregado do commercio amigo da victima e denunciado como um dos principaes fautores do famoso caso. Após Domingos Guimarães, o juizo de instrucção criminal capturou outro empregado do commercio chamado Manuel Martins Pereira Ribeiro, accusando-o de ter acompanhado o Guimarães e o Nunes Pedro a Cascaes e de ter cumplicidade na morte do segundo. Affirmou-se até n'essa occasião que o Nunes Pedro fôra violentamente aggredido com uma bengala pertencente ao Ribeiro e que este e o Guimarães haviam declarado á policia:
... terem deliberado fazer desapparecer o Manuel Nunes Pedro, visto este ser prejudicial, pois podia revelar o segredo das associações revolucionarias segundo as ameaças de denuncia que já tinha feito...
Outra informação policial entregue á imprensa periodica disse tambem que o Pereira Ribeiro reconhecera como sua a bengala acima referida, que o Nunes Pedro soffrera primeiro a aggressão dos seus companheiros de passeio a Cascaes e a seguir é que fora precipitado sobre os rochedos da Bocca do Inferno. Calculavam os aggressores que o mar, lambendo os rochedos, afastaria o cadaver para bem longe, mas o plano falhara e o cadaver lá tinha ficado no local, a compromettel-os e a comprometter a vasta organisação secreta a que elles pertenciam... Isto, tornamos a insistir, dizia a policia com o ar sorridente e orgulhoso de quem descobre uma boa pista e se dispõe a esclarecer um mysterio de alto cothurno.
Uma nova prisão veiu complicar ainda mais o romance da Bastilha: a d'um outro empregado do commercio, Adelino Luiz Fernandes, primo em segundo grau de Manuel Nunes Pedro. A policia teve-o enclausurado, incommunicavel, durante 92 dias, interrogou-o altas horas da noite, exerceu sobre elle varias violencias e, no entanto, as suas declarações em nada depuzeram contra os revolucionarios que o juizo de instrução apontava teimosamente como os eliminadores d'aquelle seu parente. Adelino Luiz Fernandes confirmava o facto do Nunes Pedro ter fugido para Badajoz a fim de se eximir a qualquer responsabilidade no desapparecimento do cartuchame; confirmava o ter elle escripto de Badajoz ao Domingos Guimarães e ao armeiro Heitor Ferreira, pedindo-lhes dinheiro e envolvendo esse pedido n'uma ameaça clara; dizia mais—que Nunes Pedro regressara de Badajoz a Lisboa em 16 de outubro de 1909, indo para um armazem do Poço do Bispo, onde se conservara dois dias; que sabendo que o primo era socio do Centro Antonio José d'Almeida, falara ao presidente do Centro, o professor Camello Neves expondo-lhe as difficeis circumstancias em que se encontrava a viuva do Nunes Pedro e que o professor, condoido da sorte da infeliz, lhe dera uma pequena quantia, uns cinco mil réis. Mas se o Adelino Luiz Fernandes affirmava tudo isto, dizia egualmente que nunca percebera nos accusados a intenção de eliminarem o primo, nunca relacionara a sua morte com a ameaça que elle enviara de Badajoz e que o Nunes Pedro, por mais do que uma vez, lhe significara o desejo ardente de sahir de Lisboa com destino á Africa Portugueza.