A policia, porém, enlevada na descoberta d'um fio tenuissimo que a collocara na pista da Carbonaria, torceu a seu talante essas declarações e desatou a prender mais gente: o commerciante Jorge Francisco de Carvalho, que sabia da estada do Nunes Pedro no armazem do Poço do Bispo; o commerciante Joaquim Francisco e o vendedor de leite Joaquim Adrião Alves, compadre do Domingos Guimarães. Este ultimo declarou no juizo de instrucção que o compadre, sendo seu hospede desde o começo de outubro de 1909, sahira de Lisboa no dia 13, que regressara no dia 16, que passara fóra de casa a noite de 18 (a noite do celebre caso), que no dia 19 fôra procurado por tres individuos e que no dia 21 fôra preso em Villar Formoso.
Ainda outra prisão: a do professor do Instituto Brigantino Artur Alvaro Pereira de Sousa. A policia implicou com elle e tentou ligal-o á morte do Nunes Pedro apenas pelo seguinte:
O professor estava a ler os jornaes que relatavam o caso e ao ver que os suppostos criminosos, no dizer dos mesmos jornaes, tinham deixado no fato do morto uns papeis compromettedores, exclamou: «Deram bota!». Foi o sufficiente. D'ahi a pouco era preso e fortemente assediado pelo juiz de instrucção.
Por ultimo, a policia ainda enclausurou um antigo cobrador do Centro Antonio José d'Almeida, Manuel José do Espirito Santo Amaro. Com este accusado succedeu um episodio interessante. O juiz, prevenindo-o de que o ia confrontar com o professor Camello Neves, insinuou-lhe:
—Quando eu o acarear com esse homem, affirme que elle o encarregou de comprar pistolas automaticas e de guardar alguns cartuchos de dynamite.
Mas o antigo cobrador, chegado o momento da confrontação, não representou o papel que o juiz lhe distribuira e a policia, indignada, perdendo a cabeça, expulsou o Amaro do gabinete do ex-irmão Hoche.
De toda esta trapalhada de averiguações, de capturas a esmo, de clausura rigorosa, de incommunicabilidade por largos periodos ao sabor da Bastilha, resultou serem enviados ao tribunal como intromettidos no caso de Cascaes apenas estes individuos: Domingos Guimarães, Manuel Martins Pereira Ribeiro, o professor Camello Neves, o commerciante Pereira de Sousa, o vidraceiro Agapito Vieira e Silva, o alfaiate Eduardo Filippe Amores e o commerciante Manuel Mendes. Todos esses homens foram julgados dias depois de proclamada a Republica e todos elles foram absolvidos. E apesar de que, n'esse julgamento, o delegado se esforçou por demonstrar que o Domingos Guimarães é que assassinara o Nunes Pedro e que os outros accusados tinham sido seus cumplices, a defeza, apreciando o caso á luz d'um criterio desapaixonado, evidenciou sem hesitação que o processo fôra simplesmente um vomito negro do antigo juiz de instrucção e que n'elle não se devia tocar pelo receio do contagio. O processo, accrescentou a defeza, não podia merecer a menor confiança; forjado na Bastilha, que a Republica destruiu, n'elle figuravam como testemunhas individuos que tinham estado presos durante largos dias de regimen inquisitorial e n'elle existiam declarações arrancadas aos accusados por meio de torturas que um moderno Scarpia puzera em pratica a altas horas da noite. A um d'esses accusados o juiz de instrucção dissera até uma vez, insurgindo-se contra a negativa formal que elle oppunha a certas affirmações de accusação:
—Ah! você não confessa!... Pois emquanto não confessar não lhe dou cama nem comida, nem consinto que sua mulher o visite!...
Mas se o caso de Cascaes, espremido até ao maximo pelo juiz de instrucção, deu simplesmente a embrulhada, que já assignalámos e que o julgamento em fins de 1910 liquidou n'um sopro, serviu, no emtanto, á policia para arrancar com furia extranha sobre a Associação Carbonaria Portugueza. As chamadas diligencias sobre aggremiações secretas constituem um documento interessante e bem elucidativo da argucia do ex-irmão Hoche e dos seus sequazes. Cada primo que entrava nos calabouços da Bastilha soffria um interrogatorio cerrado, que degenerava a breve trecho n'umas insinuações capciosas, n'umas falinhas mansas destinadas a seduzir a victima.
—Ora vamos lá, dizia o juiz pondo nos labios o seu melhor sorriso... confesse, diga tudo o que sabe. É melhor para si porque beneficia d'uma esplendida attenuante quando chegar ao tribunal e é melhor para mim, porque termino mais rapidamente as minhas indagações. Confesse... porque, se o fizer, levanto-lhe a incommunicabilidade...