A sereia policial envolvia assim o carbonario n'uma rede de encantos, de miragens deliciosas, babujava-o d'uma peçonha que o Sota da Praça tambem distillava ao tocar-lhe a vez de palpar o paciente. Em regra, o carbonario resistia. E então os dois, reassumindo toda a ferocidade que os caracterisava, soccorriam-se das ameaças, das violencias, para obter a tal confissão que, no seu acanhado entender, simplificava tudo. Um dia, o presidente do conselho de ministros, espicaçado certamente pelas referencias dos jornaes que qualificavam de inutil o supremo esforço do ex-irmão Hoche, e se insurgiam contra o largo periodo de clausura rigorosa em que elle encerrava os presos das associações secretas, chamou o juiz ao seu gabinete e inquiriu d'elle o estado do famoso processo e quaes os resultados alcançados pela averiguação da Bastilha. O ex-irmão Hoche, suppondo ingenuamente que o trabalho já feito era merecedor d'um elogio dispensado pelo chefe do governo, desentranhou-se logo em pormenores do que sabia sobre a organisação da Carbonaria.
O ministro ouviu-o attento, fel-o repetir a affirmação de que a vastissima organisação revolucionaria comprehendia muitos milhares de homens e, assim que elle acabou, perguntou-lhe quantos dos filiados nas associações secretas conseguira prender em trez mezes de diligencia policial. O ex-irmão Hoche citou um numero: duas ou tres duzias de carbonarios... O ministro deu um pulo na cadeira:
—O que? Pois o senhor tem a pretensão de capturar toda a gente que pertence a essas associações?... Convence-se que pode metter na cadeia muitos milhares de homens?... Pare lá com isso!... Mande para o tribunal os que já conseguiu enclausurar e dê por concluida a investigação!...
O juiz assim fez. Não evitou o fiasco, mas livrou-se de ser surprehendido pela implantação da Republica, ainda a prender e a interrogar os revolucionarios da Associação Carbonaria Portugueza. Para mais, n'essa altura das suas diligencias, já um bom nucleo de aggremiados sob a direcção do comité Alta Venda tinha esboçado uma diversão aos cuidados e ás attenções da Bastilha com a explosão de um petardo na egreja de S. Luiz e promettia continuar a série até que o ex-irmão Hoche se capacitasse da improficuidade das suas tentativas.
Dr. Malva do Valle
Membro substituto do Directorio em effectividade
Disse-se por mais do que uma vez que muitos dos individuos capturados por causa dos trabalhos da Carbonaria, apenas chegados ás mãos do juiz, se descosiam sem a menor hesitação e procuravam com uma denuncia completa readquirir a liberdade sob fiança. O engenheiro Antonio Maria da Silva, interrogado a tal respeito dias depois da Revolução, oppoz um desmentido formal a esses boatos:
«Effectuadas as primeiras prisões, vimos logo que os chefes das choças e cabanas eram poupados—systematicamente poupados. Isto significava que se os presos não tinham fórma de resistir á pressão inquisitorial do Scarpia azul e branco e se viam arrastados, como unica solução, até á denuncia, escolhiam de preferencia os camaradas de menor responsabilidade. De resto, já tinhamos previsto que esse meio era o unico para forçar a sahida do cul de sac asphyxiante constituido pela instrucção criminal. Esses homens não foram delatores: foram martyres. E quizera poder, n'esta hora de resgate, abraçal-os como bons camaradas que sempre foram e que tiveram a honra de occupar a vanguarda do sacrificio.»
Encarando essas prisões sobre outro aspecto: o juiz, effectuando-as, tinha a impressão de que dava assim um golpe bem fundo na organisação revolucionaria. Pois succedia exactamente o contrario. A Carbonaria fortaleceu-se de maneira consideravel logo que o ex-irmão Hoche desatou a perseguir os seus filiados. A cada noticia de tortura inflingida aos carbonarios encerrados na Bastilha correspondia, por parte da vastissima aggremiação, um impeto irreprimivel de solidariedade. E assim se explica como, decorridos tres mezes de sobresaltos, de anciedade, provocados pelas démarches da policia e apezar do exilio necessario de Luz d'Almeida e de alguns dos seus mais valiosos collaboradores, a Carbonaria, longe de vêr diminuida a sua expansão, tinha alargado tanto a sua rêde de iniciações que os dirigentes suppunham attingido o maximo grau de propaganda util e efficaz e julgavam desnecessario proseguir na conquista de novos adeptos.
Passemos a outro capitulo da historia revolucionaria: a prisão de João Borges no armazem de bombas da rua dos Correeiros, prisão que patenteou á policia o auxilio que os dynamitistas deviam prestar aos republicanos revolucionarios. Passadas algumas horas sobre ella, que na tarde d'um domingo morto, fez despertar, curiosa e receiosa, uma boa parte da população lisboeta, recebeu-se na redacção d'um jornal republicano esta missiva, que é opportuno recordar e transcrever: