A Bandeira da Revolução
Esta colheita secreta de dinheiro dá origem a varios incidentes curiosos. José Barbosa narra d'este modo um d'esses incidentes:
«Um dia Manuel Bravo foi ao meu escriptorio confiar-me para a Revolução 200$000 réis do negociante Alves de Mattos. No dia immediato procurou-me o socio d'esse negociante, Alexandre Paes, e, falando com animação desusada, queixou-se de que Alves de Mattos desdenhara do proposito em que estava de contribuir para o cofre revolucionario e que, para provar ao socio que tambem possuia bens de fortuna, subscreveria para o mesmo cofre com 1:000$000 de réis. Mas, na realidade, só me confiou, deante do socio, a decima parte d'essa quantia e sahiu do meu escriptorio agitadissimo e monologando cousas phantasticas. Á noite tive noticia de que enlouquecera. Dias depois succedeu-me ir ás 10 e 50 á estação do Rocio aguardar, na companhia de João Chagas, a chegada d'um correligionario que vinha do Porto. Mal o comboio parou, vejo o Paes sahir alvoroçado d'uma das carruagens e, defrontando-me, desatou a alludir, em altos gritos, ao supposto donativo de 1:000$000 réis que queria fazer ao cofre revolucionario. Perto andava um cabo de policia e, segundo me contaram depois, o infeliz já dentro do comboio havia affirmado em alto e bom som essa contribuição generosa. A imprudencia do louco podia custar-nos cara.»
A provincia tambem se desentranha em dedicações extraordinarias para alimentar o cofre revolucionario. Estevão Pimentel, Manuel Alegre, Malva do Valle, Ricardo Paes e os republicanos de Alhandra, Villa Franca, Portalegre, Porto e do Algarve tambem fornecem muitas armas. Independentemente da actividade de todos esses correligionarios, muitos outros se armam á sua custa e armam os amigos, comprando revolvers e pistolas em Hespanha, passando-as para Portugal dentro de malas de mão, arriscando descuidosamente a liberdade. Do Brazil os organisadores do movimento recebem, por egual, valioso auxilio monetario e ainda já depois de proclamada a Republica vem a caminho de Lisboa determinada quantia ali angariada por intimos de José Barbosa.
N'um determinado momento, o almirante Candido dos Reis foi percorrer a provincia para avaliar com segurança da situação creada pela organisação revolucionaria Acompanhou-o n'essa missão o official de caçadores sr. Pires Pereira. No regresso, a impressão do illustre marinheiro era tão favoravel ao desenlace feliz do movimento que foi decidido desde logo apressal-o e sahir á rua dentro de breve espaço de tempo. Ninguem duvidava do exito. Tudo corria ás mil maravilhas. Os elementos revolucionarios manifestavam um ardor que era impossivel conter.
[CAPITULO XIV]
[Nas barbas da policia realisam-se diversas revistas revolucionarias]
O comité de resistencia formado pela Maçonaria reunia, no emtanto, em casa e no escriptorio do dr. José de Castro, nos Makavencos, no Gremio Lusitano, no Centro de S. Carlos, em casa do sr. Francisco Grandella, etc. Dos trabalhos d'esse comité, conta-nos o sr. Simões Raposo o seguinte:
«A partir de determinado momento, as reuniões do comité de resistencia e seus adherentes passaram a effectuar-se diariamente no centro de S. Carlos, presididas pelo dr. Miguel Bombarda que, diga-se desde já, foi sempre d'uma assiduidade notavel, d'uma dedicação sem limites.
«Ao cabo d'algum tempo de preparação o comité principiou a organisar as suas forças de combate, distribuindo-as segundo um plano cuidadosamente traçado e marcando bem nitidamente o papel que cada um dos grupos de revoltosos devia desempenhar no momento propicio. No emtanto, as adhesões chegavam-nos, sempre no meio de caloroso enthusiasmo, e todas as noites, n'um gabinete do Centro de S. Carlos, soldados, cabos e sargentos, populares á mistura, affirmavam peremptoriamente a necessidade da Revolução, dispostos até a verdadeiros actos de loucura. Candido dos Reis não assistia a essas vibrações da alma revolucionaria mas palpitava-as atravez d'uma porta que separava duas salas do centro e assim andava perfeitamente orientado sobre a marcha crescente da nossa propaganda».