N'essa altura já estava constituido o sub-comité militar formado por Candido dos Reis, Fontes Pereira de Mello, coronel Ramos da Costa e capitão Palla. Fixou-se uma data para a Revolução: a de 15 de julho de 1910. Mas, chegado o momento soube-se com alvoroço que o segredo dos conspiradores fôra descoberto e que as auctoridades militares iam tomar providencias para impedir que a revolta estalasse. O movimento foi adiado.
«O adiamento—refere-nos o sr. José Barbosa—impressionou desagradavelmente os officiaes que estavam no segredo do complot. No dia immediato, vi alguns d'elles arrepelarem-se com sinceridade, verterem até lagrimas de raiva por se ter contra-mandado a revolta. Carlos da Maia, official de rara valentia, entrou no meu escriptorio agitadissimo e colerico, disposto, apesar de tudo, a tentar uma sublevação de marinheiros. Estes, por seu lado, tambem não cessavam de solicitar, de pedir que apressassemos o inicio do movimento, do contrario suicidar-se-hiam n'uma tentativa de exito improvavel, sahindo á rua contra todas as indicações dos organisadores da Revolução. A propaganda de alguns mezes aquecera-os ao rubro».
Depois de 15 de julho, multiplicaram-se as reuniões de officiaes em diversos pontos da cidade—na redacção das Cartas Politicas no Arco do Bandeira juntaram-se por vezes vinte e mais representantes da guarnição de Lisboa—fez-se outra compra de armamento e, aproveitando-se a energia do nucleo de militares que desde o começo haviam mantido a mais completa adhesão á Republica, produziu-se um trabalho galopante que fatalmente devia aluir com rapidez as instituições monarchicas.
«A primeira quinzena de agosto—affirma João Chagas—foi empregada n'essa corrida veloz para a revolução. E tão bem e tão utilmente ou proficuamente se trabalhou que tornámos a fixar data para o desenrolar do movimento: a noite de 19 para 20 d'esse mez. E fixámol-a, porque, segundo a opinião dos officiaes de marinha que nos acompanhavam, era a noite em que a bordo do D. Carlos se dava um conjuncto de circumstancias absolutamente vantajoso para a revolta. N'essa noite tudo concorreria para que a victoria fosse alcançada sem grandes difficuldades.
«Comtudo, á ultima hora, alguem denunciou o movimento ao chefe do gabinete regenerador. E succedeu o que todos sabem: ordem aos navios de guerra para sahirem a barra, prevenções nos quarteis, a policia vigiando rigorosamente a cidade, etc. O Teixeira de Sousa teve perfeito e minucioso conhecimento do complot e informaram-no com verdade do caracter que o revestia. Mas, para não desmentir os boatos postos em circulação de que o governo contava n'esse momento com um falso apoio dos republicanos, calou-se e habilmente attribuiu as medidas de rigor que tomára á necessidade de suffocar uma intentona reaccionaria».
Este segundo adiamento, longe de fazer esmorecer os organisadores da revolta, produziu effeito diametralmente opposto. N'uma reunião especial no Centro de S. Carlos, levada a effeito no domingo 25 de setembro, a que assistiram, entre outros, Candido dos Reis, o capitão Sá Cardoso e o tenente Helder Ribeiro, o comité de resistencia submetteu á apreciação dos representantes do comité militar um resumo das suas forças disponiveis, com as indicações dos locaes em que deviam operar e da funcção attribuída a cada grupo de revoltosos, e esses representantes estudaram minuciosamente o trabalho da organisação civil que, diga-se em abono da verdade, embora não tivesse sido reproduzido em cifra no papel, era absolutamente incomprehensivel para os profanos. N'outra reunião effectuada no consultorio do dr. Eusebio Leão, Candido dos Reis affirmou aos membros do Directorio que havia elementos em quantidade sufficiente para tentar a queda da monarchia e em successivas conferencias os officiaes que a ellas compareceram affirmaram a mesma coisa, dando a certeza de que a Republica em breve seria proclamada.
Precisamos voltar atraz para registar um pormenor de organisação, que José Barbosa descreve n'estes termos:
«Em outubro de 1909 a propaganda tomou maior incremento. Na primeira reunião do Directorio e da Junta Consultiva, realisada n'esse mez, como os marinheiros continuassem a affirmar que se sublevariam a breve trecho e fosse necessario entrar a fundo nos trabalhos de preparação da revolta, puz a questão com toda a franqueza: o partido republicano, no caso d'uma insurreição naval, não abandonaria os insurrectos e antes lhes daria a sua solidariedade moral e material. O assumpto foi debatido. Affonso Costa apoiou-me energicamente e todos concordámos em que era indispensavel atacar o regimen monarchico n'um golpe decisivo. A Junta Consultiva tambem se pronunciou pela acção immediata e d'ahi a dias tomámos conhecimento do inquerito feito pelo comité executivo aos officiaes republicanos, iniciando-se logo após esse inquerito as ligações entre os elementos que se suppunham isolados. João Chagas e Candido dos Reis trabalharam n'essa altura com uma febre indescriptivel. Dia a dia, João Chagas reunia nas Cartas Politicas tres e mais officiaes de marinha e do exercito de terra que, ao entrarem em contacto, se surprehendiam immenso de ver ao lado da Republica camaradas do mesmo regimento ou do mesmo navio que consideravam monarchicos retintos ou pelo menos indifferentes.
«Essa operação aggregadora representa um esforço extraordinario. Coincidiu com uma phase activissima da Carbonaria, que contava no seu seio, por interferencia propagandista do engenheiro Silva, soldados, cabos e sargentos de toda a guarnição da capital. Precisavamos em cada regimento, ou em cada navio, relacionar os officiaes republicanos com as praças adherentes. Procedeu-se cautelosamente a essa ligação, pondo primeiro em contacto um official com um sargento e depois o sargento com um determinado numero de cabos e soldados.»
O engenheiro Antonio Maria da Silva completa assim o relato de José Barbosa: