«Os officiaes passam depois a entender-se directamente com os seus subalternos e estão permanentemente em contacto com carbonarios, a quem dão indicações e de quem colhem informações rigorosas para se confeccionar o plano da revolta.
«Indigitam-se para o elaborar os officiaes: Sá Cardoso, Helder Ribeiro e Aragão e Mello. É preciso, todavia, dar aos officiaes a certeza material das forças de que dispomos, e eu fico encarregado de os pôr em contacto com essas forças. Organisam-se, por isso, verdadeiras revistas militares. Aos soldados são dadas as respectivas senhas. Uma d'ellas é: pontapé na bola. A bola, já se vê, é a monarchia com o seu farto recheio de escandalos: muito bojuda, brigantinamente bojuda. De uma vez, Aragão e Mello e o carbonario Alberto Meyrelles assistem no jardim da parada de Campo d'Ourique ao desfile de 150 homens de infantaria 16, dizendo cada um d'elles ao passar: pontapé na bola... Alguns até cantarolavam disfarçadamente a senha. Helder Ribeiro fica encantado com os resultados colhidos. O tenente José Ricardo Cabral e o soldado Domingos passam revista aos postos fiscaes; Helder Ribeiro e o pharmaceutico Abrantes revistam infantaria 1, lanceiros e cavallaria 4, o tenente Ochôa infantaria 2 e Americo Olavo, caçadores 5.
«No Rocio realisa-se uma revista em noite de musica. Um verdadeiro escandalo nas barbas da policia. N'essa noite vão para o largo do Caldas conferenciar diversos elementos revolucionarios. Aragão e Mello passa ainda em revista engenharia. D'estas experiencias resulta, como não podia deixar de ser, adquirirem os officiaes a certeza de que, com os elementos de que dispõem, a revolução tem todas as probabilidades de triumpho.»
Entretanto, os elementos da classe civil prodigalisavam-se em reuniões, em conciliabulos secretos, onde a palavra Revolução animava, todos os assistentes, impellindo-os até ao sacrificio da propria vida. A atmosphera carregava-se dia a dia e de maneira que já ninguem pensava em adiar o movimento nem em demorar-lhe a marcha fulgurante. Era absolutamente necessario abrir a valvula, porque, de contrario, a explosão inevitavel redundaria em prejuizo dos que, com tanto amor e tanta coragem, haviam projectado a emancipação da nacionalidade. Candido dos Reis e Miguel Bombarda sustentavam-se corajosamente na brecha. Das provincias vinham noticias calorosas, que demonstravam a anciedade dos republicanos pelo rebentar da revolta. Era necessario fixar uma data, apressar, custasse o que custasse, o advento do novo regimen. O balanço dado pelo comité executivo de Lisboa ás forças de que o partido dispunha garantia a certeza da victoria.
Essa impressão de anciedade era facilmente apprehendida por todos os organisadores do movimento. Até mesmo os temperamentos mais calmos, os homens cujo sangue-frio repellia imprudencias perigosas, sentiam bem de perto a necessidade urgente de se fazer qualquer coisa, que puzesse breve termo a uma tal situação.
No dia 25 de setembro, pela 1 hora da tarde, José Barbosa e Innocencio Camacho encontraram-se no campo de Sant'Anna com o general Encarnação Ribeiro. Á primeira pergunta que os dois lhe dirigiram—o movimento é viavel?—o denodado militar respondeu-lhes com uma affirmação cathegorica. Restava organisar o plano de combate.
—E em quantos dias se arranja esse plano? inquiriram José Barbosa e Innocencio Camacho.
—O maximo, oito.
Bombardeamento do Paço das Necessidades (Janella do quarto do rei)