Em face d'esta asseveração nitida, os organisadores do movimento resolveram incumbir immediatamente a elaboração do plano ao general Encarnação Ribeiro, capitão Sá Cardoso, official de marinha Aragão e Mello e tenente Helder Ribeiro. Para a acção civil dividiu-se a cidade de Lisboa em varios sectores, correspondendo essa divisão á importancia dos diversos nucleos da Carbonaria. O papel d'esses elementos consistia essencialmente em facilitar a revolta nos quarteis e evitar a agglomeração da guarda municipal—o tradicional papão dos revoltosos. Os chefes de grupo eram os srs. Rodrigues Simões, intransigente republicano de velha data; Antonio Francisco Santos, dr. Carlos Amaro, com larga folha de serviços á causa; professor Antonio Ferrão, um conjurado impenitente; Alberto Meyrelles e um empregado da Companhia das Aguas de nome Sousa. Todos os chefes eram acompanhados d'um certo numero de revolucionarios, armados de pistolas, revolvers ou bombas de dynamite e embora a sua acção parecesse á primeira vista apenas limitada ao incendiar do rastilho, a verdade é que do seu exito dependia o exito da insurreição e a grande massa de conspiradores assim disseminada pela cidade arriscava-se, mais facilmente do que qualquer outra, a soffrer as consequencias funestas de um primeiro embate com as forças fieis á monarchia.

Ainda havia, segundo o plano elaborado pelos officiaes citados—plano que se concertava admiravelmente com as indicações da organisação civil do movimento—um certo numero de revolucionarios que se entenderiam, na madrugada propria e nos diversos quarteis, com os elementos reconhecidamente republicanos ali existentes. Eram elles o tenente Pires Pereira, o barbeiro Andrade, José Madeira, o empreiteiro Oliveira, o ex-sargento Carvalho, os srs. Godinho e Abrantes e os irmãos Lamas, de Alcantara. Infantaria 5 devia atacar a força da guarda municipal aquartelada no Carmo, recebendo de caçadores 5 metralhadoras e de artilharia 1 as peças indispensaveis a um resultado seguro. O ataque seria feito pelo largo de S. Roque, rua da Trindade e largo da Abegoaria. Com infantaria 5 cooperaria o regimento de engenharia, que se esperava sahisse do quartel sob o commando do tenente Alvaro Pope. O quartel de marinheiros seria invadido pelo 1.º tenente Parreira, acompanhado de alguns officiaes de marinha e d'um grupo de revolucionarios de Alcantara. O almirante Candido dos Reis iria com outros officiaes a bordo do D. Carlos e dos outros navios de guerra para, com a sua presença, a sua coragem e o prestigio do seu nome, dissipar quaesquer hesitações de momento.

Os barcos que tinham sahido de Lisboa, ao falhar a tentativa revolucionaria dos meiados de agosto—por effeito da denuncia que o chefe do gabinete regenerador recebera de determinado governador civil fundadamente alarmado com os preparativos de insurreição que surprehendera na capital do seu districto—voltaram ao fundeadouro no Tejo em meiados de setembro. Pouco depois, a marinhagem enviava ao Directorio e ao comité executivo de Lisboa delegados especiaes e declarava peremptoriamente que não tornava a sair a barra emquanto não fôsse proclamada a Republica ou se procurasse, pelo menos, tentar abalar o regimen monarchico. Essa resolução era inadiavel. O cabo Antonio, um marinheiro decidido e leal, chegou a dizer no Directorio a José Barbosa e Innocencio Camacho:

—Temos que sahir para a revolta custe o que custar. Perseguem-nos a bordo mais do que nunca e eu e os meus camaradas estamos resolvidos ao ultimo sacrificio, mesmo a um fuzilamento provavel. Não é possivel prolongar a situação...

[CAPITULO XV]

[Fixa-se a data do movimento e approva-se o plano definitivo]

Dias depois, começou a correr a noticia de que os navios de guerra iriam para Cascaes no começo de outubro e o almirante Candido dos Reis, conferenciando de novo com o Directorio e o comité militar, ponderou-lhes a urgencia na fixação d'uma data para a revolta. Por outro lado, o comité de resistencia, conferenciando egualmente com o Directorio, expôz-lhe claramente a situação e a impreterivel necessidade de a liquidar. O Directorio pensou, e muito bem, que, embora estivesse prompto a sanccionar a tentativa revolucionaria, precisava obter a garantia de que o movimento, a realisar-se, não se desenrolaria anarchicamente, mas sim com uma disciplina e uma ordem honrosas para a collectividade democratica. Combinou-se então confiar essa affirmação decisiva a um arbitro e o Directorio acceitou Candido dos Reis n'esse posto de enorme responsabilidade moral. É justo accentuar que tal exigencia do Directorio não representava desconfiança nos trabalhos do comité de resistencia. Em cada um dos membros d'essa organisação republicana, como em cada um dos membros do comité, havia a convicção inabalavel de que o movimento se iniciaria apesar de tudo e com probabilidades de exito. A mais rudimentar prudencia, porém, aconselhava que se averiguasse bem fundamente do estado dos elementos revolucionarios dispostos ao combate e que n'um balanço seguro de forças se baseasse a resolução definitiva do assumpto. N'outra reunião effectuada no Centro de S. Carlos, Candido dos Reis proferiu perante o Directorio a sua sentença arbitral.

—Individualmente, disse elle, eu, Candido dos Reis, simples soldado da Revolução, entendo que mesmo anarchicamente ella deve fazer-se dentro d'um curto praso. Não podemos admittir que a monarchia continue a achincalhar-nos. Como arbitro, affirmo que, embora o movimento seja mal succedido, não envergonhará, na derrota, o partido republicano.

Perante esta opinião, expressa energica e categoricamente, o Directorio decidiu sanccionar a tentativa, dar-lhe, digamos assim, um caracter official.

É interessante recordar que n'essa occasião em que o almirante Candido dos Reis manifestava a sua opinião technica ao Directorio do partido republicano, um dos organisadores do movimento fez-lhe ligeira observação sobre as probabilidades de triumpho. O almirante endireitou o busto e n'um tom de voz que não admitia replica exclamou: