—Se me julgasse incapaz de assumir o commando das forças de marinha e de as conduzir á victoria, dava um tiro na cabeça!...
Isto explica até certo ponto o mysterio da sua morte, na madrugada de 4 de outubro, á hora exactamente em que principiava a ferir-se o primeiro combate serio entre as forças revoltadas e os elementos militares de que a monarchia até então ainda dispunha. Mas, não antecipemos considerações sobre o fim tragico do almirante, visto que a elle teremos de fazer referencia áparte.
A 30 de setembro, estando já resolvida a tentativa de revolta, um dos membros do Directorio perguntou a Candido dos Reis qual a data que se devia escolher para o estalar da bomba. Resposta do almirante:
—Os acontecimentos é que hão de fixal-a.
Essa data, no emtanto, não podia ser outra senão a de 4 de outubro, pois que n'esse dia de manhã os barcos de guerra tinham ordem de mudar de fundeadouro. A madrugada de 4, isto é, momentos depois de terminado o banquete no paço de Belem, offerecido ao marechal Hermes da Fonseca, estava naturalmente indicada para o começo da insurreição. De resto, muito embora Candido dos Reis em 30 de setembro houvesse falado do caso pela fórma vaga que acima registamos, verdade é que, dois dias antes, no espirito do almirante já tinha perpassado a data de 4, apontando-a até n'uma reunião a que presidira no dia 28 d'aquelle mez. Essa reunião fôra convocada especialmente para o comité de resistencia ouvir do comité militar as indicações que, sobre a revolta, se lhe offerecesse apresentar.
José Carlos da Maia
No dia 1 de outubro, o engenheiro Antonio Maria da Silva e Machado Santos reuniram-se no café Martinho e o primeiro, depois de communicar a opinião de Candido dos Reis, de que o movimento se devia iniciar quanto antes, ficou incumbido de prevenir os officiaes de marinha revolucionarios para uma nova reunião de elementos militares no dia seguinte, ás 4 da tarde, em pleno Chiado, no consultorio do dr. Eusebio Leão. Era o dia 2, o dia marcado para a grandiosa manifestação que, diga-se de passagem, não serviu apenas ao presidente dos Estados Unidos do Brazil para avaliar com nitidez da expansão da idéa democratica entre nós e para desfazer a má impressão provocada, á sua chegada á capital, pelo rapto imaginado e posto em execução pelo governo regenerador, mas tambem para esclarecer os mais scepticos dos conspiradores sobre o estado d'alma do elemento civil. Os milhares de manifestantes que na tarde do dia 2 de outubro se agglomeraram em frente do paço de Belem e nas arterias proximas mostraram bem claramente aos organisadores do movimento que a Republica Portugueza era um facto e que a monarchia se equilibrava a custo n'uma base tradicional, roída pela propaganda da liberdade e pelos vicios inherentes ao antigo regimen.
Á reunião do Chiado compareceram uns quarenta officiaes. Entraram á formiga no consultorio do dr. Eusebio Leão, emquanto, cá fora, na rua, Innocencio Camacho, José Barbosa, Simões Raposo e outros revolucionarios civis vigiavam attentamente pela segurança dos conspiradores militares. Na reunião, os quarenta officiaes tomaram o compromisso solemne de se insurreccionar, estabeleceram a senha e o signal de reconhecimento, cuja transmissão aos chefes de grupos populares seria feita por Miguel Bombarda e depois de terem fixado definitivamente a madrugada de 4 de outubro para o começo da Revolução, assentaram tambem decisivamente no plano de combate, modificando n'alguns pontos o plano anterior, porque os militares não queriam fornecer armas aos civis, receando desmandos e vinganças pessoaes. Ficou por isso entendido o seguinte:
Engenharia, infantaria 5 e caçadores 5, sahindo dos seus quarteis, dirigir-se-hiam para o Rocio, mandando-se depois a infantaria atacar o quartel do Carmo, para obstar á sahida da municipal. Parte da marinha desembarcava no Terreiro do Paço, apoderando-se do telegrapho e apoiando as forças que deveriam estacionar no Rocio. Infantaria 2, caçadores 2 e marinheiros do quartel d'Alcantara e parte da marinha dos navios cercava o palacio das Necessidade para prender o rei. A artilharia dividia as suas forças em duas fracções. Uma ia reunir-se a caçadores 2, ao palacio das Necessidades e outra seguia para o largo de S. Roque, apoiando as forças do Rocio e impedindo a communicação da guarda municipal pela rua do Alecrim e praça Luiz de Camões. Os grupos civis, por sua vez, com bombas e granadas de mão impediam em diversas ruas da cidade que as forças da municipal evolucionassem para o ataque ás forças revoltadas.