Feito o singelo auto de fé, o sabio professor volta-se para os operadores e colloca-se á sua inteira disposição. O trabalho dos cirurgiões é demorado e extenuante. Dura longos minutos, porque os projecteis da Browning perfuraram violentamente os intestinos e ha o justo receio de uma peritonite fatal. Cá fóra, nas immediações do hospital e da Escola Medica, a multidão de curiosos engrossa a olhos vistos. Os placards augmentam de momento a momento a anciedade do publico com as informações sobre o estado do enfermo.
Ao cahir da tarde, não ha esperanças de o salvar. A opinião corrente é de que o criminoso foi suggestionado pelo clericalismo. O dr. Bombarda combatera desde annos distantes a reacção e o fanatismo e aventa-se a hypothese de que elle succumbe a um manejo cruel d'esses seus dois inimigos. A excitação popular é tão intensa que um padre, no Rocio, passa um mau bocado, só porque alguem lhe ouviu dizer a respeito do attentado:
—Foi bem feito!... Não se perde nada.
No Chiado e na Avenida da Liberdade ha correrias da policia, tentando inutilmente abafar essa colera surda que estremece em ondas ameaçadoras. De grupo para grupo, faiscam exclamações de desespero. Pensa-se abertamente n'uma desforra retumbante. O povo liberal, que a essa hora ainda não sabe que um grupo de homens decididos resolveu fazer dentro de pouco a Revolução, prepara-se expontaneamente para qualquer coisa que o attentado decerto provocará. Os mais impulsivos gritam ás escancaras:
—Ah! os clericaes querem guerra!... Pois tel-a-hão!
Ninguem duvida. O assassinio do dr. Bombarda vae ser o ponto de partida para uma lucta sem treguas entre liberaes e reaccionarios, tanto mais accesa quanto é certo que o governo regenerador anda a burlar a opinião, fingindo satisfazer-lhe as reclamações no tocante á expulsão dos congreganistas de Aldeia da Ponte e do Barro.
Ás seis e minutos, o eminente democrata exhala o ultimo suspiro. Mas, facto extranho: n'esse momento de verdadeira crise, quando se suppõe que a agitação popular vae assumir um caracter gravissimo, aquecida ao rubro pela noticia da morte, na atmosphera da cidade como que perpassa uma voz mysteriosa mas incisiva, recommendando socego e prudencia. Alguns jornaes republicanos recebem mesmo indicações n'esse sentido. Nada de placards que enfureçam o povo: nada de titulos berrantes que augmentem o alarme e a indignação. Calma, muita calma... energia, sim, mas sem furia. A Revolução está á porta. E, se o governo monarchico se assusta com a attitude hostil do povo... toma as suas medidas de precaução e embaraça, ainda que inconscientemente, a eclosão do movimento.
Entretanto, os organisadores da revolta escoam-se silenciosamente por entre a multidão, dando a ultima demão aos preparativos. Previnem-se amigos e companheiros do ideal, chamam-se urgentemente a Lisboa os conspiradores que dias antes se tinham ausentado da cidade, ha conciliabulos rapidos em diversos pontos, os chefes de grupo são convocados para o Centro de S. Carlos a receberem armas e instrucções. A esta reunião devia presidir o dr. Bombarda... O dr. Bombarda, estendido n'um leito de morte, é substituido pelo sr. Simões Raposo. O material revolucionario, que até então estivera quasi todo abrigado sob as vistas cautelosas do sr. Martins Cardoso, é canalisado para aquella aggremiação, a dois passos da policia e sem que a policia dê por isso. Os massos com revolveres entram, sem recato, sem precauções, no edificio... Nas salas do Centro allude-se ao movimento em tom tão claro e expressivo que um dos revolucionarios que estaciona no largo, em frente do theatro lyrico, galga apressadamente as escadas, a recommendar maior discreção:
—Falem mais baixo!... Na rua ouve-se tudo...