[No momento culminante, o desanimo invade os organisadores da revolta]

A ultima reunião dos organisadores do movimento realisou-se na noite de 3 no terceiro andar do predio 106 da rua da Esperança, residencia da mãe de Innocencio Camacho, que elle, nas vesperas, transferira para Cintra, receioso de que os acontecimentos a envolvessem nas suas graves consequencias.

Na tarde d'esse mesmo dia Innocencio Camacho e José Barbosa tinham ido ao escriptorio do dr. Affonso Costa avisal-o, por incumbencia do almirante Candido dos Reis, da data fixada para a revolta. O dr. Affonso Costa ouviu attentamente a communicação ensaiando algumas vezes o santo e a senha e depois limitou-se a puxar d'um carnet e a escrever ali o numero do predio da rua da Esperança. Sabia perfeitamente o que se tramava, mas não calculava que o movimento rebentasse d'ahi a horas. Marinha de Campos, que José Barbosa tambem prevenira do facto, cumprindo egualmente uma determinação do almirante, metteu-se n'um automovel com Alfredo Leal e foi a Cintra chamar o dr. Eusebio Leão, que adoecera na vespera.

Ás 7 da tarde, emquanto o engenheiro Antonio Maria da Silva ia tratar de arranjar uns doze automoveis que eram indispensaveis para o serviço de communicações, João Chagas e José Barbosa foram jantar a um restaurante da Baixa, pretendendo dar uma tregua á agitação que os dominava. O que foi esse jantar não se descreve com facilidade. Decorreu tristemente, quasi silencioso, pois que até João Chagas parecia n'esse momento avaro da viveza e do espirito de brilhante causeur que o caracterisam. «Mal comemos, contou-nos mais tarde José Barbosa; e o pouco que ingerimos não tinha o menor sabor».

Ás 8 os conjurados principiaram a affluir á rua da Esperança. Innocencio Camacho appareceu mais cedo para abrir as portas e fazer as honras da casa. Os outros eram, além dos revolucionarios representantes da armada e de todos os corpos da guarnição da capital, Candido dos Reis, Affonso Costa, José Relvas, José Barbosa, João Chagas e Antonio José d'Almeida. Eusebio Leão, que viera de Cintra apesar da doença que o affligia, fôra deitado n'um sophá e ardia em febre. A sala, onde só cabiam á vontade dez pessoas, tinha apenas uma meza e sobre ella um candieiro de petroleo. Em volta da meza perambulavam cerca de cincoenta conjurados. A atmosphera era irrespiravel. Asphyxiava-se lá dentro.

Na reunião, Candido dos Reis falou com rara energia, accentuando nitidamente que se não fosse capaz de collocar-se á frente dos marinheiros e de os conduzir á victoria não tinha o direito de viver. Examinou-se a situação. Os revolucionarios contavam em absoluto com elementos de lanceiros 2, cavallaria 4, caçadores 2, infantaria 5 e caçadores 5. De infantaria 16 comparecera á reunião apenas um alferes e havia duvidas sobre se o regimento podia entrar desde logo na revolta. Infantaria 1 não adheria, mas tambem não contrariava a acção conjuncta dos militares e do povo. Dentro da sala, repetimos, abafava-se... Isso não impedia, entretanto, que todos os conjurados se mantivessem n'um estado de espirito que removia mentalmente quaesquer obstaculos que surgissem ante o projecto de insurreição.

A reunião acabou ás 10 e 30, dando-se alguns dos officiaes presentes rendez-vous na rua do Livramento, depois de se fardarem convenientemente. O movimento seria iniciado á 1 hora da madrugada com uma salva de 31 tiros dada pelos navios de guerra fundeados no Tejo, salva que teria o seu echo no quartel de artilharia 1. O Directorio e os outros elementos de organisação installar-se-hiam, como já dissémos, no balneario de S. Paulo, d'onde, uma vez iniciada a revolta, sahiriam para Alcantara e ao encontro do monarcha João Chagas, José Relvas e Affonso Costa. Tencionavam, n'essa altura, pegar em D. Manuel e mettel-o a bordo d'um navio.

Dissolvida a reunião, José Barbosa foi ao Centro de S. Carlos, encontrando ali tres officiaes de marinha que pediam armas. Como lhes fosse respondido que no momento as não havia, retorquiram immediatamente:

—Não ha duvida. Voltaremos, fardados, a buscal-as!...

E voltaram. No Centro tambem estava o engenheiro Oliveira, que em companhia de Alvaro Pope devia iniciar o ataque ao quartel de engenharia. De tarde, falaram na necessidade de arranjar um pé de cabra para arrombar a porta d'um edificio militar. O empreiteiro Oliveira, embora lhe repugnasse usar tal instrumento, tanto forcejou que o obteve e á noite lá estava no Centro com o pé de cabra, tranquilisando d'este modo a sua consciencia: