—Como é para servir a boa causa...
Candido dos Reis appareceu no Centro de S. Carlos ás 11 e 50. Combinou com Simões Raposo que este iria a Belem aguardar o inicio da revolta, a Belem, onde o pharmaceutico Abrantes, como já tivemos ensejo de registar, organisára um nucleo fortemente combativo e que depois falaria com elle na Rocha do Conde d'Obidos, dando-lhe Simões Raposo n'essa occasião conta do que se passasse n'aquelle ponto da cidade. Candido dos Reis ainda alludiu á morte do dr. Miguel Bombarda e elle e Simões Raposo assentaram em que esse facto doloroso não influira de modo algum no projecto da revolta, quer para a adiar, quer apenas para a modificar em determinado sentido.
Proximo da meia noite, juntaram se no estabelecimento de banhos de S. Paulo: Affonso Costa, José Relvas, Eusebio Leão, Innocencio Camacho, José Barbosa, Antonio José d'Almeida, João Chagas, Joaquim Pessoa, Celestino Steffanina, Ricardo Durão, Manuel Duarte, engenheiro Antonio Maria da Silva, Malva do Valle, Marinha de Campos, Alfredo Leal, Simões Raposo e Soares Guedes. Este revolucionario e Joaquim Pessoa tinham-se incumbido de arranjar os barcos necessarios para o embarque de officiaes e forças de marinha nos caes do Gaz e da Viscondessa. Não se faz ideia da agitação moral que a todos dominou durante a longa hora em que esse grupo de conjurados esperou que os navios ancorados no Tejo dessem o signal para o começo da revolta. Ao soar a 1 hora da madrugada, nada se percebendo, vindo do exterior, que lhes indicasse o cumprimento do que momentos antes fôra decidido, a anciedade recrudesceu. Vinte minutos depois, ouviam-se apenas tres tiros de peça; a seguir alguns tiros isolados que muito pouco podiam significar para a satisfação do seu espirito... Nada ou quasi nada do que fôra combinado se produzia. Os factos succediam-se por modo a fazer desesperar os mais optimistas. Até o primeiro regimento a sahir á rua era exactamente aquelle com que os organisadores do movimento menos contavam: infantaria 16.
Não constitue segredo para ninguem que os organisadores do movimento revolucionario tiveram um momento de desanimo, um momento em que suppozeram tudo perdido. Foi durante o espaço de tempo que decorreu entre a hora anteriormente marcada para o inicio da revolta e o alvorecer do dia 4, quando um nucleo de republicanos se defrontava já com uma fracção das forças fieis á monarchia. Esse momento, em que as melhores energias sentiram um desfallecimento semelhante ao do 28 de janeiro, marca uma étape curiosissima da Revolução.
No estabelecimento de banhos de S. Paulo—já o dissemos concentrara-se proximo da meia noite uma duzia de homens decididos e resolutos, tendo cada um d'elles uma missão definida a cumprir. D'ahi, d'esse quartel general, os revolucionarios partiriam ao signal combinado para diversos pontos da cidade a executar o plano fixado. Aguardavam, portanto, esse signal com a anciedade precursora dos grandes acontecimentos decisivos. Mergulhados quasi na treva, dir-se-hia que continham a respiração para evitar que do exterior surprehendessem o menor symptoma agitador. Um relogio proximo bateu a uma da madrugada e todos os ouvidos se apuraram. A incerteza, dominava-os. Escoaram-se alguns minutos que pareceram seculos. Do grupo destacaram-se então tres ou quatro que foram percorrer as immediações do balneario. Nada se percebia que denotasse o começo da refrega e o desalento—uma interrogação insatisfeita—pairava no ambiente.
Á uma e vinte, os tiros de peça que soaram no Tejo deram o alarme. Contaram-nos um a um. Não correspondiam ao que fôra planeado. Que se passaria a bordo n'esse instante supremo? Que significava esse troar d'artilharia que não tranquilisava os espiritos? Alguem aventou a ideia de que os tiros constituiam um signal pedindo soccorro. Mas soccorro para qual dos barcos de guerra? Evidentemente, um d'elles fôra atacado pelos outros e solicitava para terra urgente auxilio.
A situação complicava-se. Para mais, logo a seguir a esse alarme tudo recahira no silencio. A cidade dormia em plena paz. A curta distancia do balneario vigiavam mollemente tres policias. Affonso Costa, Alfredo Leal e Malva do Valle tomaram uma resolução: ir a Alcantara vêr o que se passava. Sahiram de S. Paulo n'um automovel e recommendaram aos que ficavam:
—Se dentro de vinte minutos não voltarmos, siga para o quartel de marinheiros outro grupo...
Foi o que succedeu. Affonso Costa, Alfredo Leal e Malva do Valle não regressaram ao balneario dentro do praso marcado e João Chagas e Antonio José d'Almeida, enfiando n'outro automovel, abalaram pelo Aterro adeante.
O silencio da madrugada ainda se não rompera com os echos do tiroteio. A meio do Aterro, João Chagas e Antonio José d'Almeida encontraram um official de marinha, que assistira, no 3.º andar da rua da Esperança, á ultima reunião dos conjurados. Andava agitadissimo d'um lado para o outro, como a procurar um ponto de embarque ou quaesquer amigos que já se lhe deviam ter reunido. Falaram-lhe e elle não occultou a sua decepção. Falhara tudo... O movimento liquidara n'um pessimo esboço de insurreição.