Ahi, os officiaes conferenciaram e decidiram, após breve discussão, que a columna marchasse para a Avenida. O capitão Sá Cardoso, na qualidade de official mais antigo, tomou o commando superior e Machado Santos passou a dirigir a guarda avançada de infantaria 16 e grupos civis. Na altura das Amoreiras, a cauda da columna foi atacada d'uns quintaes ou coisa parecida e respondeu com uma descarga de infantaria. No largo do Rato houve novo alarme, mas da policia, que rapidamente foi desarmada por Machado Santos. Na rua Alexandre Herculano, deu-se uma scena que nos primeiros momentos não foi facil explicar: os revolucionarios foram ali recebidos com enorme tiroteio e a columna, desmantelando-se, marchou em debandada até á rua Castilho. N'esta rua, os capitães Sá Cardoso e Palla e Machado Santos lá conseguiram juntar de novo os elementos dispersos e as forças revolucionarias, ainda que no meio de grande confusão, conseguiram chegar á Rotunda.

Uma vez no famoso acampamento, o capitão Palla arranjou definitivamente a artilharia e Machado Santos e outros officiaes a infantaria; á esquerda d'esta formou um pelotão de 40 atiradores civis. O capitão Sá Cardoso fez uma fala aos soldados e populares que estavam ali reunidos, mostrando bem a responsabilidade que pesava sobre todos. Entretanto, a força de policia que estava na feira de Agosto, commandada pelo chefe Antunes, tinha retirado prudentemente do local; ao acampamento iam chegando mais populares e entre elles dois guardas municipaes; todos os individuos que passavam na Rotunda eram obrigados a pegar em armas. Ás 4 da manhã, a cavallaria da guarda municipal tentou um ataque pela frente do acampamento. Não fôra completamente destroçada na Avenida pelo grupo civil incumbido de o fazer, muito embora Silva Passos e outros conjurados arriscassem a vida n'essa denodada investida—e assim conseguira chegar a cincoenta metros das forças sublevadas. Mas estas responderam logo com fusilaria e tres granadas e os cavalleiros fieis ao antigo regimen tiveram que retroceder com algumas perdas.

Passemos agora da Rotunda a Alcantara e vejamos o que succedia n'esse bairro de verdadeiras tradições revolucionarias. O quartel general dos elementos que estavam no segredo do complot era a typographia da rua do Livramento, pertencente ao industrial sr. Franklin Lamas. Ninguem dirá ao vêr esse modesto artifice da revolta que a sua pallida e rachitica figura de anemico disfarça, além d'uma vontade de ferro, uma tenacidade organisadora fóra do commum. E, no emtanto, Alcantara deve-lhe assignalados serviços de acção republicana, em que a ousadia e a fé inquebrantavel venceram multiplos obstaculos á propaganda do Ideal.

Na noite de 3 de outubro, logo que ao bairro chegou a noticia de que o movimento seria iniciado d'ahi a poucas horas, os elementos revolucionarios correram a reunir-se no estabelecimento do sr. Franklin Lamas, ao tempo em que os centros republicanos da freguezia eram invadidos por populares que disputavam entre si as poucas armas até então ali armazenadas. Á 1 e 8 da madrugada de 4, reportamo-nos á precisão mathematica do relatório do 1.º tenente Parreira—sahiram da typographia, além d'esse denodado official de marinha, os 2.os tenentes Sousa Dias e Carlos da Maia, commissarios navaes Costa Gomes e Guilherme Rodrigues, 1.º sargento Gonçalves dos Santos, 2.os contra-mestres Armando Barata e Correia da Silva, 2.º sargento José Rodrigues, Franklin Lamas, seu irmão Francisco Lamas, Joaquim Alves, Joaquim Vaz e outros civis. Este disciplinado nucleo revolucionario encaminhou-se para o quartel de marinheiros, onde entrou pela chamada porta do jardim.

Moysés, o tambor dos revolucionarios

Lá dentro, depois de desarmada a sentinella, o grupo arrombou a arrecadação do armamento, que foi distribuido pelos populares que ainda o não tinham, preparando-se tudo para a prisão dos officiaes que estavam no edificio. Ainda no jardim do quartel e a caminho da parada de cima, o grupo defrontou quatro d'esses officiaes que faziam uma ronda. O 1.º tenente Parreira não hesitou. Dirigiu-se-lhes energicamente, intimando-lhes a rendição e os quatro officiaes entregaram as armas, dando pouco depois entrada n'um dos calabouços. A seguir o grupo revolucionario subiu ás casernas, o 1.º tenente Parreira mandou levantar e armar todas as praças e como o sargento da guarda se mostrasse hesitante, o illustre official obrigou-o a entrar na formatura e mais tarde mandou-o prender, por não lhe merecer confiança. Faltava aprisionar os dois commandantes do corpo de marinheiros para se effectivar a posse completa do quartel.

Formou-se então um nucleo incumbido de defender as sahidas do edificio e os restantes revolucionarios procederam a varias buscas. «O primeiro a descer—conta o 1.º tenente Parreira no seu relatorio—foi o 1.º commandante que vinha só e armado e ficou entre portas á entrada do corredor da porta principal». O heroico commandante dos revoltosos intimou-o a render-se. Elle resistiu, primeiro agitando a espada e depois disparando tiros de pistola, e um grupo desfechou, attingindo-o e prostrando-o ferido. Acudiram os criados que o transportaram para os seus aposentos particulares e os contingentes das differentes casernas principiaram a juntar-se na parada, onde já então se encontrava o 2.º tenente Tito de Moraes, que tomou logo a iniciativa de activar a formatura das praças.

D'ahi a momentos os civis empregados nas buscas correram sobre o 2.º commandante do corpo, obrigando-o a fugir até á parada de cima, onde o 1.º tenente Parreira o aprisionou, mettendo-o no calabouço com os outros officiaes suspeitos. Arrombou-se depois o paiol da polvora, os cunhetes foram trazidos para a parada e, assim que se municiaram cerca de 50 praças, esta força installou-se nas janellas da frente do quartel sob o commando do commissario Costa Gomes, recebendo incumbencia de impedir a sahida do esquadrão de cavallaria da municipal e defender essa face do edificio.

Ás 2 e meia da madrugada, concluido o municiamento das praças, os revolucionarios arrombaram a porta sul do quartel e sahiram para a rua 24 de Julho, onde pouco antes tinham formado outras forças e grupos civis. O nucleo organisado no quartel dos marinheiros, depois de leve contacto com uma diminuta força de cavalaria em reconhecimento, que retrocedeu logo que ouviu dar vivas á Republica, marchou em direcção á rua da Costa, pretendendo assim cumprir uma parte do plano estabelecido e que consistia em cercar o palacio das Necessidades, conjugando a sua acção com a da columna de infantaria 16 e artilharia 1 do commando do capitão Sá Cardoso. Já dissemos que essa columna se viu impossibilitada de exercer tal missão, por ter sido atacada pela municipal na rua Borges Carneiro. O nucleo do quartel dos marinheiros tambem não poude chegar até junto do palacio, porque, tendo a sua guarda avançada avistado na passagem da linha ferrea forças de cavallaria 4 e infantaria 1, o 1.º tenente Parreira mandou fazer alto, encarregando entretanto alguns civis de explorarem a rua Vieira da Silva.