D'ahi a pouco surgiu na frente dos revolucionarios um tenente de infantaria. Logo que chegou á fala, declarou que tambem ia pedir instrucções ao tenente-coronel; e como as vedetas espalhadas pela rua Vieira da Silva affirmassem que as forças contrarias estavam egualmente desenvolvidas para esse lado e a cavallaria e a infantaria fieis á monarchia tomassem posições de combate, o 1.º tenente Parreira desistiu de avançar sobre o palacio das Necessidades e decidiu preparar as coisas para um inevitavel recontro sangrento. Mandou arrombar parte do tapume proximo á passagem de nivel do caminho de ferro de cintura e dividiu as forças de marinha em dois pelotões. Um, sob o commando do tenente Carlos da Maia, desenvolveu-se em angulo recto, parte com as costas no tapume e com as armas dirigidas para a passagem de nivel, e outra parte dentro da cêrca e com a frente para oeste. O outro pelotão dividiu-se em duas fracções commandadas respectivamente pelos tenentes Sousa Dias e Tito de Moraes e formou com as costas para a parede norte da rua 24 de Julho, dirigindo as armas obliquamente para a passagem de nivel, cruzando, por conseguinte, os fogos com as forças que lhe ficavam fronteiras.
O 1.º tenente Parreira, tomadas estas disposições, ainda esperou um pouco antes de abrir as hostilidades. Mas, continuando a notar movimentos na cavallaria e infantaria adversas, resolveu tomar a offensiva e deu a voz de fogo. A fusilaria crepitou com energia e violencia durante minutos. Do lado opposto, responderam ao ataque com umas descargas que causaram algumas baixas nas forças revolucionarias. A seguir, como a cavallaria inimiga, desembocando na rua Fradesso da Silveira, desobedecesse á intimativa do 1.º tenente Parreira para fazer alto, os revolucionarios e os populares atacaram-na rudemente, secundados pela artilharia civil e a cavallaria, dispersando-se, bateu em retirada, com cêrca de 50 baixas entre mortos e feridos. Não se calcula o effeito desmoralisador que n'esse regimento fiel á monarchia produziu a explosão de varias bombas. Os soldados precipitaram-se immediatamente das montadas, originando uma confusão enorme, e emquanto uns se refugiavam aqui e ali buscando abrigo contra aquella arma poderosa que lhes parecia ser lançada do inferno, outros corriam para junto dos populares revoltosos, pedindo que os poupassem e declarando abandonar d'uma vez para sempre o serviço do antigo regimen.
Terminado o primeiro combate serio entre republicanos e monarchicos e em que os revolucionarios de Alcantara déram sobejas provas da sua grande coragem, o 1.º tenente Parreira dividiu a columna em dois pelotões, recolhendo o primeiro ao quartel de marinheiros, pela rua Baluarte para o guarnecer e defender, ficando ainda o tenente Carlos da Maia com o segundo pelotão até final da debandada do inimigo. Esta força recolheu mais tarde ao quartel pela porta sul, ao tempo em que um automovel que apparecera no local conduzindo os srs. Antonio José de Almeida e Pires de Carvalho se incumbia de levar ao hospital alguns revolucionarios feridos e um morto.
Brito Camacho
Uma vez no quartel, o 1.º tenente Parreira mandou reforçar a defeza da face do edificio que olhava para a guarda municipal de Alcantara, defeza que continuou a ser dirigida pelo commissario Costa Gomes, e guarneceu a parada do sul, de modo a impedir a vinda do inimigo pela rua 24 de Julho. D'esta fórma, o quartel ficou constituido em verdadeiro baluarte, defendido não só pelas forças de marinha, mas por grande numero de populares, que n'essa occasião se lhes aggregaram e foram logo armados e municiados.
[CAPITULO XVIII]
[Os sargentos de artilharia 1 resolvem continuar a lucta]
Voltemos á Rotunda. Logo de manhã, Machado Santos, que então commandava uma força destinada a proteger o acampamento de qualquer assalto dos monarchicos pelas avenidas Fontes Pereira de Mello e Duque de Loulé, prendeu o 1.º tenente Victor Sepulveda, palaciano de fresca data, e que pouco antes sahira de casa attrahido pelo estrondear dos canhões. Machado Santos, que o conhecia dos tempos em que elle, Sepulveda, tambem conspirava contra a monarchia e se affirmava, pelo menos apparentemente, d'um radicalismo feroz, perguntou-lhe que fazia ali n'aquelle ponto da cidade. O 1.º tenente Sepulveda illudiu a pergunta e inquiriu por sua vez:
—Ah! és tu?... A marinha está aqui?...