Entretanto, Machado Santos, apoz o abandono da Rotunda pelos outros officiaes, convoca um conselho de sargentos de artilharia 1 e pergunta-lhes se acceitam o seu commando.
—Estou decidido, diz elle, a não abandonar esta posição, custe o que custar!...
Os sargentos respondem-lhe que morrerão combatendo até o ultimo momento pela Republica. Machado Santos pede então um cavallo, monta e desde esse instante é elle o unico dirigente dos revolucionarios concentrados no alto da Avenida.
O sol doura o rio, onde se vêem passar, como a medo, pequenos barcos. Para os lados do Rocio sente-se um movimento de tropas: fileiras de soldados guarnecem a entrada da praça dos Restauradores. Machado Santos dispõe as peças de artilharia, tomando as embocaduras do Rato, avenida Fontes Pereira de Mello e avenida da Liberdade e colloca-as tambem no parque Eduardo VII para defender o acampamento pelo lado norte. Ao meio dia, n'um momento de treguas, os populares arranjam os entrincheiramentos, que Machado Santos, elle proprio, considera platonicos, mas que dão ás forças revoltosas a illusão perfeita d'um forte abrigo contra as investidas dos monarchicos.
Na Rotunda já estão a essa hora uns quatrocentos homens, exhibindo variado armamento. Estabelecem-se vedetas. A guarda das côrtes, commandada por um sargento de infantaria 16, vem juntar-se aos revoltosos. Apparecem outros destacamentos e praças isoladas que fugiram dos respectivos corpos. Os viveres acodem em abundancia. Grupos de civis vão de vez em quando ao Matadouro apprehender a carne ali abatida... para que se não diga que a camara municipal a fornece de bom grado aos revoltosos e é... seu cumplice.
A dispersão do quartel general revolucionario que, na madrugada de 4, se installara no estabelecimento de banhos de S. Paulo, effectuara-se, entretanto, por uma forma desanimadora. João Chagas e outros elementos de organisação tinham abalado para os lados do Rocio e até que a manhã clara lhes desse um vago indicio da situação, foram pousando aqui e ali, hesitantes, indecisos, repugnando-lhes acreditar na derrota completa, mas desalentados ao mesmo passo pela falta de noticias seguras, com a ausencia de factos dos quaes dependia uma tal ou qual esperança de victoria.
Primeiro estiveram n'uma casa da rua dos Correeiros, deposito d'aguas mineraes; depois voltaram ao terceiro andar da rua da Esperança, residencia da mãe de Innocencio Camacho e durante uma boa parte do dia 4 tentaram inutilmente approximar-se do acampamento da Rotunda. Ao cahir da tarde, porém, João Chagas conseguiu passar do Rocio para a avenida Fontes Pereira de Mello, ir a casa e a seguir áquelle fóco de intensissima rebeldia. Mas o trajecto fel-o dominado pela ideia de que, se os serventuarios da monarchia o reconhecessem, o victimariam sem complacencia. Uma vez nas garras da municipal ou da policia, João Chagas pagaria com a vida a sua temeridade. Tinha bem presente no espirito a intranquilidade do sr. Malaquias de Lemos quando antes do 28 de janeiro o trouxera encerrado no quartel dos Paulistas, e futurava logicamente que, se o prendessem durante a revolta, lhe dariam destino egual ao de tres desgraçados que no dia 5 appareceram fusilados n'outro quartel da guarda pretoriana. Antes morrer do estilhaço d'uma granada que succumbir a dentro d'umas grades de ferro, sem lucta, inerme, manietado por algozes...
Outros dos dirigentes revolucionarios percorreram na madrugada de 4 as redacções dos jornaes, procurando anciosamente informar-se dos acontecimentos. Outros ainda, como José Barbosa, Celestino Steffanina e o engenheiro Antonio Maria da Silva, installaram-se no escriptorio do primeiro á hora em que já havia correrias da municipal pelo Calhariz e o Loreto e os soldados disparavam tiros para o ar, não tardando a occupar as embocaduras das ruas, porque os grupos de civis os ameaçavam com bombas. José Barbosa conta d'este modo essas horas de tragica anciedade:
João de Menezes