«A madrugada ia rompendo e continuavamos sem saber positivamente o que estava succedendo na cidade. Eu conservava em meu poder os papeis com os nomes das pessoas que deviam constituir o governo provisorio e varias indicações a cumprir logo que a Republica fosse proclamada. Relemol-os até os fixarmos na memoria e preparámo-nos para os inutilisar logo que a policia invadisse a casa. A anciedade era enorme. De positivo sabiamos apenas que a guarda municipal cercara o telegrapho e não a marinha, como fôra deliberado ao adoptar-se o plano revolucionario. Na estação do Terreiro do Paço, todos os empregados que faziam serviço na madrugada de 4 eram republicanos e deviam retardar a transmissão dos telegrammas officiaes. O engenheiro Silva conseguira, por meio d'umas trocas, afastar n'esse momento os empregados que não tinham adherido ao complot.
«De manhã, cedo, sahimos á rua a colher noticias. Na rua das Gaveas encontrámos José da Costa Carneiro, que nos deu informações animadoras. Mas surgiram outras, contradictorias, e a indecisão era manifesta. Entrámos depois na pharmacia Durão, onde estacionavam alguns revolucionarios. Necessitava-se antes de mais nada dar certas ordens, restabelecer as communicações com os navios e o alto da Avenida, reorganisar o quartel general. No Hotel Europe estavam José Relvas e Eusebio Leão. Ambos haviam passado a noite entre os jornaes republicanos e o consultorio do segundo. Fui ter com elles ao hotel e, depois de almoçarmos, Relvas e eu fomos para a rua e mais tarde, na Lucta, começámos a tomar as providencias que os factos impunham. Brito Camacho procurava instantemente canalisar os elementos dispersos, impedir a derrota e com uma calma que pouca gente, de certo, lhe conhece, com uma coragem serena, imperturbavel, resolvia os problemas que de momento se nos apresentavam.
«Em certa altura, discutimos o caso da morte de Candido dos Reis e accordámos em mentir, affirmando que o vice-almirante vivia, para evitar que o desanimo invadisse os elementos revolucionarios. Tratou-se da interrupção das linhas ferreas e telegraphicas e de prevenir a hypothese do governo monarchico receber qualquer auxilio da provincia, onde, diga-se de passagem, a Carbonaria contava uma vasta rêde de ligações. Silvestre Coelho, por indicação nossa, foi a Sacavem assegurar-se de que a artilharia do forte estava disposta a obstar a qualquer avanço sobre Lisboa de elementos fieis ao antigo regimen. E como em artilharia 3 os revolucionarios tinham um camarada dedicado na pessoa do capitão Figueiredo, em caçadores 6 havia dois ou tres officiaes declaradamente republicanos e infantaria 15 estava por nosso lado, socegámos os mais receiosos de um ataque vindo de fóra, explicando que as forças da Revolução o não podiam temer e que tudo marchava para um triumpho redemptor.
«Mas não limitámos a nossa acção a estas providencias. No Beato, no Centro João Chagas, tinham-se concentrado 300 homens armados de espingardas caçadeiras e praças da guarda fiscal. Indicámos-lhes a conveniencia de descerem até ao Rocio, por um itinerario cuidadosamente escolhido e se não se realisou esse avanço sobre as forças acampadas n'aquella praça foi porque se reparou em dado momento que talvez esse contingente de revolucionarios tivesse de desempenhar outra missão importante no local da sua concentração. Emfim, ás quatro da tarde de 4, a impressão era de que os acontecimentos se desenrolavam muito mais favoravelmente para a Republica. Continuámos, no emtanto, a providenciar no sentido de não se perder, com uma imprudencia ou um gesto de desalento, o que até então fora feito á custa de muita dedicação. Jayme Teixeira incumbiu-se de levar ao quartel de marinheiros uma communicação tranquilisadora e outra communicação analoga foi enviada a Machado Santos. N'uma e n'outra repetiamos que os revolucionarios estivessem socegados porque não viria de fóra de Lisboa auxilio á monarchia. A Machado Santos tambem o preveniamos da imminencia do ataque effectuado pelas baterias de Queluz.»
No emtanto, Innocencio Camacho fôra a bordo dos navios insurreccionados dar-lhes indicações seguras sobre o que se estava passando em terra. Affonso Costa e Antonio José d'Almeida, depois de terem errado pelo Hotel Central, a casa do dr. Augusto de Vasconcellos e outro ponto da cidade, tinham ido parar a Algés, onde, a bem dizer, mal chegavam os echos do tiroteio.
[CAPITULO XIX]
[O desespero de Candido dos Reis condul-o ao suicidio]
Tem-se dito por vezes, embora com todas as cautelas possiveis, que o elemento popular falhou na Revolução de 4 e 5 de outubro. E cita-se, em abono d'esta asserção: 1.º o facto de não terem comparecido, na madrugada de 5, no local previamente designado, os civis que deviam acompanhar o almirante Candido dos Reis e outros officiaes a bordo dos navios de guerra; 2.º a circumstancia da guarda municipal ter conseguido sahir dos quarteis, pouco depois de iniciado o movimento, quando, pelo plano estabelecido, os grupos de paisanos deviam impedir essa sahida ou, pelo menos, retardal-a e tirar-lhe, por assim dizer, a utilidade do momento.
A asserção não é fundada. O elemento popular não falhou. A Revolução, se tinha de ser feita com o povo e com a tropa—o povo abrindo o caminho á tropa—triumphou exactamente porque as melhores energias populares não trepidaram no instante supremo. Os civis não compareceram, é certo, no ponto marcado pelo almirante Candido dos Reis; mas não compareceram, e isso já é do dominio publico, porque receberam na noite de 3 ordens em contrario. De resto, a sua acção fez-se sentir efficazmente n'outro ponto de Lisboa e o assalto aos navios de guerra não dependia absolutamente da sua presença ao lado do almirante. Para obstar á sahida da guarda municipal, havia escalonados diversos grupos, constituidos cada um d'elles por uma duzia de homens, uns armados e outros não. Esses grupos tinham recebido o encargo mais perigoso na distribuição dos papeis revolucionarios: o de defrontar em primeira mão a furia do inimigo. Eram verdadeira chair á canon e deviam iniciar o combate á hora em que ninguem sabia ainda com precisão quaes os regimentos fieis á monarchia e quaes os que adheriam á Republica.