Governo Provisorio da Republica Portugueza
Esses homens cumpriram o seu dever. Não obstaram completamente á sahida da municipal, porque receberam na hora propria armamento insufficiente e o itinerario do inimigo soffreu modificações, mas conservaram-se firmes no seu posto durante longas horas de espectativa angustiosa, correndo a todo o instante o risco de se lançarem na lucta antes d'um signal de esperança e sem saberem se seriam ou não secundados. E uma vez dispersos, muitos d'elles foram procurar outros sitios de combate, onde se portaram com inexcedivel coragem e bravura. Falando d'alguns d'esses homens que foram seus companheiros na primeira noite da revolta, dizia dias depois do triumpho o dr. Carlos Amaro:
—Deve-se-lhes, principalmente, a força de fé indomavel que foi o segredo da victoria e não ficar sendo a Revolução uma obra exclusiva do heroismo militar.
E com effeito. Os civis estiveram na Rotunda ao lado de Machado Santos, dando-lhe uma parcella de auxilio que o heroico revolucionario certamente não desconhece; estiveram em Alcantara investindo contra as forças organisadas da monarchia; entrincheiraram-se no quartel de marinheiros e arrostaram o ataque da guarnição do paço das Necessidades; foi um grupo de paisanos que denodadamente acompanhou um arrojado official de marinha, o 2.º tenente Tito de Moraes, a tomar conta d'um dos navios de guerra; os civis é que assaltaram o D. Carlos; na madrugada de 5, foram ainda os grupos de populares que incommodaram as forças militares acampadas no Rocio; e por ultimo, os paisanos distinguiram-se no arriscado serviço de communicações durante esse periodo de cruel incerteza em que cada passo dado na area da insurreição correspondia ao sacrificio de tudo, desde o amor da vida ao amor da familia.
Contou-nos José Barbosa, assim que se dissiparam os fumos do combate: na madrugada de 4, apoz a dispersão do quartel general revolucionario, quando elle, desalentado, entrava para o seu escriptorio da rua do Loreto, viu um grupo de homens agitar-se com as armas na mão, em frente da guarda municipal que guarnecia a Caixa Geral dos Depositos. Esse grupo de homens não ignorava, decerto, que o seu acto era requerimento para uma execução summaria. E comtudo, realisava-o ardorosamente, enthusiasticamente, desprendendo-se da existencia com um desapego notavel.
Outro caso: Machado Santos estava na Rotunda sem saber o que occorria nos diversos pontos da cidade. Pensava já em mandar um emissario dedicadissimo á busca de noticias e não occultava o seu aborrecimento, provocado pela falta de informações. De repente, apparecem no acampamento dois rapazes e elucidam os revoltosos sobre a situação. Esses dois rapazes tinham ido a pé do Dafundo ao Alto da Avenida, e ali se conservaram, até á proclamação da Republica.
E outros, muitos outros casos poderiamos citar, evidenciando a energia de que o elemento popular deu provas nos dias 4 e 5 de outubro, expondo-se ás balas com uma coragem que por vezes roçou a mais extraordinaria loucura. Na tropa revoltada houve legitimos heroes; mas os civis não falharam como se apregoa insistentemente. Foram os obreiros humildes do movimento e só lhes resta, como premio de tanto esforço e sacrificio, a orgulhosa consolação de terem sido os primeiros a correr todos os riscos da aventura.
Folheemos agora uma pagina da Revolução, que, por muito discutida, nem por isso deixa de merecer n'estas narrativas um registo especial. Referimo-nos á acção do almirante Candido dos Reis nas primeiras horas do movimento, ao desanimo que o invadiu e á sua morte.
O valente official devia embarcar no Caes do Gaz acompanhado por uns dez militares agaloados e um grupo de civis. Estes não compareceram no local. Dos militares compareceram oito: o capitão de fragata Fontes Pereira de Mello, o tenente de caçadores Helder Ribeiro e os tenentes de marinha Silva Araujo, Carvalho Araujo, Aragão e Mello, Monteiro Guimarães, Sousa Junior e Assis Ferreira. O primeiro a chegar foi o tenente Carvalho Araujo; Candido dos Reis, que, após a reunião da rua da Esperança, fôra ao Centro de S. Carlos e de lá a casa d'umas pessoas de familia residentes n'uma rua da Estephania, encontrou-se á meia noite n'essa casa com o tenente Helder Ribeiro. Depois de breves palavras sobre o movimento projectado, um e outro trataram de carregar as armas, dois revolvers, de que estavam munidos.
Falou-se mais tarde, a proposito da morte do almirante, que o ferimento encontrado na autopsia e a bala alojada dentro do craneo denotavam que Candido dos Reis se servira para o provavel suicidio d'uma pistola automatica. O tenente Helder Ribeiro é de opinião que elle não possuia tal arma. «E—diz o arrojado official—a rasão é simples: quando quiz carregar o meu revolver pedi-lhe algumas cargas do revolver que elle tinha na mão. Cedeu-m'as, mas, como não servissem, trocámos ligeiras impressões sobre a precipitação com que o armamento fôra distribuido aos revolucionarios. Era natural, portanto, que, se elle tivesse na occasião outra arma que não esse revolver vulgar, m'a emprestasse para eu não sahir á rua, como sahi, quasi desarmado».