Pouco depois da meia noite, o almirante Candido dos Reis e o tenente Helder Ribeiro sahiram da casa da rua da Estephania e encaminharam-se para o Aterro. Um vapor de pesca devia conduzir os officiaes revolucionarios a bordo dos navios de guerra. Qual era? Dil-o o 1.º tenente Carvalho Araujo n'uma entrevista que concedeu a um jornal da manhã:
«Esse vapor era o Chire, que eu procurei ao longo da muralha, apenas ali cheguei. N'esta rapida busca encontrei-me quasi de cara com uns individuos, gente caracterisadamente de bordo, e eu, julgando tratar-se de tripulantes do Chire, dirigi-lhes a senha: Mandou-me procurar? Elles, porém, não me responderam o Passe, cidadão! que os devia denunciar como gente nossa... Aquelle mutismo fez-me recolher prudentemente, e assim me conservei até que chegaram os meus collegas, a quem o almirante, em breve, mandou embarcar no Chire.
«N'esse vapor chegaram a entrar alguns d'esses officiaes; lembro-me muito bem: foram o Silva Araujo e o Sousa Junior, que por signal d'ahi a pouco voltaram, com esta estranha noticia: o Chire tinha as caldeiras apagadas... Houve um momento de quasi indignação e,—porque não dizêl-o?—de desanimo... Mas em breve nos refizemos, e, por um excesso de boa vontade, accordámos em que nos tinhamos enganado no nome do vapor—e n'este numero estava Candido dos Reis, que no emtanto se mostrou visivelmente contrariado... Embora! Nem assim se esmoreceu. E, um pouco ao acaso, fomos caminhando para o Dinorah, na esperança de que fosse aquelle o vapor que nos esperava. Recordo-me de que quem entrou ali foram Candido dos Reis, Monteiro Guimarães e eu...
«—Um momento—interrompeu o jornalista entrevistador—Isso realisou-se, é claro, depois do assalto?...
«—Do assalto? Mas se não houve assalto nenhum...
«—Parece-me, no emtanto, que me falou n'um assalto, quando ha pouco fazia a descripção geral d'essa jornada...
«—Sim, falei n'um assalto, mas para negar que tal se desse, em contrario do que parece deprehender-se de varios depoimentos. Nós entrámos no Dinorah sem que ninguem, fosse quem fosse, nos impedisse o passo...
«—E uma vez lá dentro...
«—Mal punhamos pé no navio, um homem da tripulação veiu ter comnosco e, sem mais preambulos, com uma grande tranquillidade, que bem se via não ser a de um iniciado, diz-nos: saberão vv. ss.as que o vapor não está navegavel...» O almirante estacou n'um pasmo e depois disse ao Monteiro que descesse á casa das caldeiras a certificar-se...
«—E era certo?