Alfredo Leal tratou novamente de tranquilisal-o, mas Candido dos Reis insistiu na ideia do suicidio:
—Para uma esquadra, nunca... antes a morte!...
Como era arriscado andar na rua áquella hora, Alfredo Leal aconselhou o almirante a recolher a casa e esperar ahi noticias do movimento. O almirante concordou e n'esse sentido dirigiu-se o automovel para a rua D. Estephania, dizendo Candido dos Reis ao seu companheiro:
—Bem. Eu vou para casa de minha irmã, n'esta mesma rua, n.º 153. Você vae saber o que ha de novo, e, se a revolução estiver em bom caminho, mande-me prevenir.
Quando o automovel ia a parar á porta do n.º 155, a attenção do almirante foi despertada por um facto extranho. A porta da rua estava aberta e um vulto desapparecia, n'esse momento, no limiar. Tanto Candido dos Reis como Alfredo Leal viram distinctamente esse vulto e ficaram hesitantes durante algum tempo, conjecturando sobre o que seria. Por fim, Candido dos Reis, tranquilisando-se, a si proprio, resolveu entrar em casa. Alfredo Leal ainda esperou que o almirante fechasse a porta atraz de si e depois metteu-se de novo no automovel, scismando apprehensivo no vulto que pouco antes vira. Seria um espião da policia?... Alfredo Leal ficou com a impressão de que se tratava realmente d'uma creatura assoldadada para vigiar o almirante. O que succedeu depois, conta-o elle d'este modo:
«Como achasse imprudente voltar no automovel á casa de banhos, resolvi dirigir-me a casa de meu irmão, em Santos, e ali ordenei ao chauffeur que seguisse para o local onde se combinára estacionar. Mal ouvi a fuzilaria, parti, a pé, para uma casa da travessa da Palha em que se reuniam alguns revolucionarios. No caminho, tive a felicidade de encontrar o automovel do irmão de Innocencio Camacho, que ia para o mesmo destino, e tomei logar ao lado d'elle. Apenas chegado, contei a João Chagas e outros o que se tinha passado, e como n'essa altura já o tiroteio fôsse violento em toda a cidade, consultei os outros sobre a maneira de prevenir Candido dos Reis. Assentou-se em mandar um popular de confiança, porque, sendo eu conhecido da policia, podia esta deter-me no caminho e impedir que o recado chegasse ao seu destino. Com effeito fui procurar um republicano de confiança e encarreguei-o de levar o recado a Candido dos Reis. Deviam ser, n'essa altura, 3 horas ou 3 e meia da manhã.
«Pode calcular-se a anciedade com que ficámos esperando o regresso do emissario. Mais de duas horas passaram e o homem não chegava. Por fim, já muito inquieto, resolvi descer á rua e tive a felicidade de esbarrar com o emissario, que regressava todo afflicto. Não tive tempo de lhe perguntar o motivo da sua enorme demora. O homem desfechou-me bruscamente a noticia da morte de Candido dos Reis, descrevendo assim como se desempenhára da sua missão:
«—Quando cheguei á rua de D. Estephania, disseram-me ali que o almirante tinha sahido ás 5 horas da manhã. Tratei então de saber onde era a sua residencia, por calcular que elle tivesse seguido para lá. Passado pouco tempo avistava-me effectivamente com a familia, a quem fui encontrar no mais completo desolamento. Já lá tinha chegado a noticia de que Candido dos Reis apparecera morto e de que o seu cadaver fôra removido para a Morgue».
O que se tinha passado durante esse periodo de tempo que medeiou entre a entrada do almirante no n.º 153 da rua de D. Estephania e a apparição do seu cadaver na Azinhaga das Freiras, em Arroyos? O cadaver de Candido dos Reis, quando uns populares o ergueram do solo, estava estendido ao comprido e com os pés na direcção da estrada de Sacavem. Tinha o braço direito afastado do corpo e proximo do antebraço uma pistola automatica. No fato: uma bolsa de cabedal com 500 réis em prata, quatro nikeis de 100 réis e uma moeda de cinco réis nova em folha, e uma carteira com uma nota de 5$000 réis e varios papeis...
A primeira pessoa que topou na Azinhaga das Freiras com o cadaver do almirante foi o trabalhador João Augusto da Silva. Empregava-se ao tempo na reconstrucção d'um muro proximo e passou no local ás 6 e um quarto da manhã. A essa hora, a azinhaga estava deserta. Foi á arrecadação do material, distante uns quarenta metros, pegou n'uma pá e voltou para o amassadouro da cal, que era mesmo á esquerda. Candido dos Reis já estava estendido no chão e agonizava. O trabalhador João Augusto da Silva chamou então outros operarios, um servente requisitou a comparencia de dois policias da esquadra de Arroyos e, depois de se verificar que o almirante succumbira ao ferimento recebido na cabeça, transportaram o cadaver para a Morgue. Os dois policias tomaram conta da pistola automatica, da carteira e da bolsa a que atraz nos referimos.