Coisa curiosa: esse trabalhador, quando interrogado por um reporter sobre os pormenores que acabamos de registar, affirmou peremptoriamente: 1.º que ás 6 horas e um quarto da manhã a Azinhaga das Freiras estava deserta; 2.º que não ouvira nenhuma detonação durante o espaço de tempo que medeiou entre a sua passagem á primeira vez no local e o encontro do cadaver. Em contrario d'esta affirmação depôz a esposa d'um enfermeiro residente na rua de Arroyos, que disse o seguinte:

—No dia 4 de outubro, cheguei á janella ás 6 da manhã, esperando a leiteira. Vi que no passeio, em baixo, passeiava d'um lado para o outro, n'uma extensão de dez metros, um individuo vestido todo de negro, que, de quando em quando, me fitava, o que me obrigou a retirar para o interior da casa. Passados dez minutos, quando novamente á janella, vi esse individuo sentado n'um marco de pedra. Voltei dentro a buscar vasilha para o leite, e quando assomei á porta senti um estalido secco, a que não liguei importancia, tanto mais que só vi fugir alvoroçadas algumas gallinhas. Instantes depois, percebi certo borborinho. Cheguei novamente á janella, e o sr. Leitão, fiscal do hospital d'Arroyos, disse-me:

«—Está ali um homem morto. Parece-me que é tio d'uma empregada. Vou chamal-a.

«No emtanto, emquanto o fiscal se dirigia ao interior do hospital, desci á rua, e, ao vêr o corpo estendido no chão, exclamei:

«—É o homem que ainda ha pouco ali passeava defronte...»

Mas ou seja o que contou o trabalhador João Augusto da Silva, que o almirante surgiu na Azinhaga das Freiras ás 6 e 30 da manhã e, mal ali surgiu, cahiu moribundo, ou como contou a esposa do enfermeiro, isto é, que Candido dos Reis passeara algum tempo na azinhaga antes de morrer, a verdade é que parece nitidamente averiguado que n'esse momento de tragico desespero, no local do doloroso acontecimento, só estava o almirante. Mais ninguem. E sendo assim, é forçoso arredar da narrativa do caso a hypothese d'um crime. Fica, apenas, de pé, a do suicidio. E será admissivel essa hypothese? É. O almirante, depois de ter entrado na casa da rua D. Estephania, onde imprudentemente o deixou Alfredo Leal, recolheu ao quarto de dormir, mas não enfiou logo na cama. Esteve um pedaço a reflectir na situação, a ponderar no insuccesso do movimento—que elle suppunha absolutamente perdido. Depois deitou-se. Mas a idéa de que tudo liquidára n'uma desastrada aventura não o deixava pregar olho. Ás quatro da manhã, ouvindo o estrondear do canhão, ergueu-se e vestiu-se. E é natural que, n'esse instante, tendo recebido a impressão de que n'um determinado ponto de Lisboa os revolucionarios combatiam corajosamente contra o inimigo monarchico, ao seu espirito acudiu tambem a idéa de que os bravos assim lançados em declarada rebellião já o tinham talvez considerado, por o não verem a seu lado, um medroso, um covarde.

E então, Candido dos Reis, que trabalhara com alma e decisão n'uma longa preparação revolucionaria, como trabalharam Sá Cardoso, o capitão Palla, Machado Santos e outros, sacudido por essa idéa, magoado porque o pudessem suppôr o que elle nunca tinha sido, achando, certamente, que já era tarde para enfileirar condignamente com os que luctavam desde a 1 e 30 da madrugada, elle, que estivera inactivo até esse momento, julgou que desmerecera por completo no conceito dos seus amigos, dos seus camaradas, dos seus correligionarios e... suicidou-se. Repetimos: isto é uma hypothese que formulamos. Para nós, como para muita gente que seguiu de perto a discussão jornalistica que apoz a revolução se estabeleceu sobre o assumpto, a hypothese do suicidio é perfeitamente acceitavel. Para outros não: para outros Candido dos Reis foi victima d'uma cilada preparada pelos inimigos da Republica e argumentam que seria coincidencia muito extraordinaria que, a dois passos da victoria, desapparecessem exactamente duas grandes figuras da preparação revolucionaria,—uma, Miguel Bombarda, attingido por um doido, a outra, o valoroso almirante, esmagado pelo desespero.

[CAPITULO XX]

[O rei Manuel abandona o palacio das Necessidades]

Deixámos os revolucionarios de posse do quartel de marinheiros na altura em que, tendo destroçado as forças monarchicas em Alcantara, haviam recolhido ao edificio e ali organisado uma defeza. Pouco depois, amanheceu. «E então, relata o 1.º tenente Parreira, verificou-se que pelo lado sul infantaria 1 estava occulta com as casas do caminho de ferro e tapumes, desenvolvendo-se até á rua da Costa, acompanhada tambem da guarda fiscal e d'alguma cavallaria 4. Ás 6 horas os navios, ainda a leste, deram algumas salvas, içando nós no mastro da parada a bandeira encarnada, para poder ser vista pelos navios. Ao mesmo tempo na rua estabeleciam-se vedetas, que fizeram a apprehensão de varios artigos, taes como uma carroça de pão da padaria militar e outra de carne que foi levada para as cozinhas do quartel, bem como uma carroça de refrescos que passava na occasião.