«Pelas 7 horas da manhã veiu um dos chefes de um dos grupos civis informar que o S. Raphael e Adamastor tinham bandeira revolucionaria içada, mas que a bordo do Adamastor lhe haviam dito ser preciso um official para commandar o S. Raphael, visto lá não haver official algum, e o Adamastor estar apenas commandado pelo tenente Cabeçadas esperando ordens. Esta informação levou o tenente Parreira a ordenar ao tenente Tito de Moraes que fosse tomar o commando do S. Raphael e indagasse o que succedera, o que elle fez, seguindo com 4 civis para o Aterro, na intenção de tomar qualquer embarcação que lhe apparecesse ou mesmo utilisar-se d'uma falua do Arsenal que ali estava ao serviço do carvão e cujo encarregado se pôz á disposição dos revoltosos.

«Proximo das 9 horas veiu um sargento, que recolhia de licença, communicar que tinha recebido ordem do commandante das forças fieis ao regimen monarchico e que defendiam as Necessidades para da sua parte intimar o commandante das forças de marinha a render-se no praso de 15 minutos, sob pena de mandar metralhar o corpo de marinheiros, ao que o tenente Parreira respondeu, mandando armar o sargento e fazendo-o entrar na linha de fogo.

«Algum tempo depois vimos o S. Raphael seguir rio abaixo vindo fundear em Alcantara em frente do quartel de marinheiros, e desembarcar uma força com uma metralhadora e as munições precisas para guarnecer a gente do quartel, e tambem os officiaes que faziam parte da guarnição do navio, e que vieram presos para terra, sendo mettidos nos calabouços do quartel.»

Mas, não prosigamos no desenrolar d'esta documentação sem uma referencia demorada ás peripecias que precederam o desembarque dos marinheiros no quartel de Alcantara e o bombardeamento do Paço das Necessidades. Como já dissémos, ás 7 horas da manhã do dia 4, o tenente Parreira recebeu as primeiras informações do que occorria a bordo dos navios revoltados: o Adamastor e o S. Raphael. Essas informações foram-lhe prestadas, além de outros civis, por Estevão Pimentel, que já tinha estado a bordo do Adamastor e falara com o tenente Cabeçadas. Era forçoso ir tomar o S. Raphael, não só porque o comando do barco devia ser exercido por um official, mas porque os officiaes prisioneiros dos revoltosos se esforçavam por convencer os seus aprisionadores a desistirem da insurreição.

O tenente Parreira consultou os officiaes que o acompanhavam. O tenente Tito de Moraes offereceu-se logo para ir desempenhar essa missão de confiança e foi ao Adamastor, d'onde seguiu mais tarde para o S. Raphael. Tomou conta do barco e quando os seus camaradas monarchicos lhe manifestaram o receio de qualquer complicação, se o movimento, porventura, não triumphasse, o distincto official pegou n'um papel e n'uma penna e redigiu uma declaração honrada e firme que concentrava na sua pessoa toda a responsabilidade do que de futuro succedesse.

Depois, ordenou aos officiaes do S. Raphael—que os marinheiros revoltados tinham aprisionado—que se conservassem detidos até o momento de irem para terra, e, assumindo o commando do cruzador, trouxe-o para Alcantara. O Adamastor preparava-se, no emtanto, para largar da boia e ir occupar uma posição identica ao lado do S. Raphael. Á passagem do S. Raphael junto do D. Carlos, que ainda ostentava a bandeira azul e branca, as poucas praças então a bordo do segundo d'esses cruzadores proromperam em vivas á Republica. Um popular ainda lembrou ao tenente Tito de Moraes:

—E se nós fossemos agora tomar o D. Carlos?

O denodado official hesitou uns segundos, mas depois replicou:

—Logo... fica para logo... Agora temos outro serviço a fazer.