Proclamação da Republica Portugueza pelas Camaras Constituintes

Em Alcantara, no momento em que o tenente Tito de Moraes fazia desembarcar do S. Raphael os officiaes presos, cincoenta marinheiros revoltados, uma metralhadora e alguns cunhetes de polvora, appareceu-lhe n'um bote, em mangas de camisa, o commissario naval Marianno Martins, que, sendo conspirador e não tendo recebido a tempo o aviso de comparencia, resolvera no dia 4 de manhã dirigir-se a bordo d'aquelle vaso de guerra, despindo a sobrecasaca do uniforme para que da majoria general o não reconhecessem.

—Ás suas ordens, meu commandante!—disse Marianno Martins ao tenente Tito de Moraes. Este agradeceu-lhe a collaboração n'um aperto de mão cordealissimo e confiou-lhe, entretanto, o comando do cruzador. Marianno Martins subiu a escada e quando se dispunha a entrar no barco olhou para a fragata que transportava os seus camaradas prisioneiros e perguntou-lhes, sem perceber no momento a situação em que todos elles se encontravam:

—Então... vocês não ficam?

Um silencio doloroso acolheu a pergunta. Cortou-o um viva enthusiastico á Republica soltado por um revolucionario e a fragata largou immediatamente do S. Rafael.

No quartel dos marinheiros, porém, não havia a menor informação do que se passara durante todo esse tempo na Rotunda ou em qualquer outra parte da cidade. Só proximo do meio dia é que ali chegaram um dos membros do Directorio, o sr. Malva do Valle, e Celestino Steffanina, expondo a verdadeira situação das forças revolucionarias, que conheciam pormenorizadamente por terem estado pouco antes no Alto da Avenida.

«Logo—conta o tenente Parreira—se impoz a juncção com as forças da Rotunda, e julgando-se necessario inutilisar ou pelo menos enfraquecer, desmoralisando-a, a brigada que defendia as Necessidades, foi ordenado o bombardeamento do paço, que demorou algum tempo, e depois do corpo de marinheiros estar debaixo de um intenso fogo das metralhadoras de caçadores 2 e das restantes forças fieis á monarchia.

«O effeito d'este bombardeamento foi surprehendente, porque, levantando o moral das nossas forças, provocou grande desanimo nas forças contrarias. Ainda debaixo do fogo das metralhadoras tivemos a alegria de ver entrar no quartel o medico Vasconcellos e Sá, cujo papel distribuido não era ir para o corpo de marinheiros á 1 hora da noite, mas sim esperar com automoveis o desembarque da gente dos navios na Rocha do Conde de Obidos, ás 2 horas da manhã, desembarque que não se fez. Este official, a quem não mandaram automoveis ao hospital da Marinha e que já tinha feito seguir antes da 1 hora da noite os 4 enfermeiros com ambulancias portateis para o Aterro e que se apresentaram depois no corpo—apenas ouviu, no hospital, os tiros de peça, tentou seguir por sua vez com um enfermeiro, deixando as ambulancias no Hospital da Marinha e enfermeiros com ordem de as levarem para onde fosse preciso, caso ainda apparecessem os automoveis promettidos. Não conseguindo passar, em virtude de descargas das forças que a essa hora guarneciam o Museu de Artilharia, voltou ao Hospital da Marinha, onde começou a fazer operações e os curativos precisos nos feridos que vinham chegando, até que finalmente, já cheio de impaciencia, conseguiu arranjar um automovel que conduziu ambulancias, 4 enfermeiros e elle, medico, e, seguindo pelo Aterro, atravessou as forças da municipal que estavam no Terreiro do Paço, e, chegando ao quartel de marinheiros, entrou logo no exercicio das suas funcções.

«Entretanto, ainda vieram emissarios de Machado Santos insistindo pela juncção e informando que a passagem por terra para as bandas de Leste seria de pouca segurança, pois as ruas a atravessar estavam guarnecidas pela municipal e interceptavam a passagem. Ficou então assente em principio que seguiriamos por mar, embarcando nos cruzadores, varrendo as ruas da baixa com bombardeamento do mar e procurando desembarcar a leste do Terreiro do Paço, no caso que fosse mais accessivel.»

O primeiro projectil dos navios revoltados que cahiu no paço das Necessidades lançou um panico medonho nas creaturas que então velavam pela integridade do sr. D. Manuel. O paço estava guarnecido de tropas que se suppunha fieis ao antigo regimen. O quartel general entendera que, antes de mais nada, devia proteger a residencia do soberano e accumulara ali todos os elementos militares que não tinham tido cabimento no Rocio. Estes defendiam o quartel general; o restante guardava o palacio do rei. E durante horas esta situação de pura defensiva manteve-se inalteravel, apenas fracamente entrecortada por um esboço de ataque ao quartel dos marinheiros delineado como que a medo pelas tropas acantonadas nas Necessidades.