O panico que o bombardeamento produziu no paço foi enorme. O rei correu ao oratorio a implorar a intervenção divina, e emquanto uma meia duzia de servidores—dedicados não ha duvida—se conservava álerta, disposta a acompanhar o monarcha nas suas glorias ou nas suas vicissitudes, os outros servos—a grande maioria—abandonavam precipitadamente o edificio, possuidos do mais extraordinario pavor. Até as cozinhas do paço se resentiram da fuga... Como os tiros da artilharia naval continuassem a incidir sobre as paredes que ainda abrigavam essa côrte em perfeita dissolução, o rei teve um impulso de decisão. Chamou o official da guarda e disse-lhe:

—Telephona ao presidente do conselho...

Mas o apparelho não funccionava convenientemente e o sr. D. Manuel, decerto obcecado pelo que alguns aulicos lhe tinham dito em tempos sobre um provavel apoio da Gran-Bretanha á dynastia de Bragança, exclamou para um cortezão:

—Se estiver no Tejo algum destroyer inglez, que metta no fundo os navios revoltados!...

D'ahi a pouco, os dedicados servidores do palacio tomavam resoluções importantes sobre a situação. Convidaram o soberano a sahir do edificio, onde já corria grave risco, e acompanharam-no ao extremo da Tapada. Ahi deviam tomar logar em dois automoveis e partir para Mafra—o unico ponto de confiança para o antigo regimen e que podia proporcionar-lhe um reducto de certa consistencia.

Assim se fez. O rei enfiou para o automovel d'uma garage particular, que haviam chamado á pressa, e no mesmo vehiculo metteram-se tambem os srs. conde de Sabugosa e marquez do Fayal, o primeiro vestindo ainda a casaca com que na vespera assistira ao banquete offerecido no paço de Belem ao marechal Hermes da Fonseca. No outro automovel seguiram os dois unicos creados que não tinham fugido do paço com os primeiros effeitos do bombardeamento. Até certa altura, os dois vehiculos foram escoltados por uma força de cavallaria da municipal. Contou mais tarde o commandante d'essa força que por um triz uma granada da artilharia naval não desfez o automovel que conduzia o sr. D. Manuel. Foi n'um momento em que esse vehiculo soffreu uma panne. Instantes depois da avaria ser remediada e do automovel ter proseguido de novo a sua marcha, a explosão do projectil juncou de estilhaços mortiferos precisamente o ponto onde o rei aguardara, triste e silencioso, o concerto do carro.

Candieiro furado pelas balas na Avenida da Liberdade

As duas rainhas, entretanto, esperavam anciosamente noticias de Lisboa: a sr.ª D. Amelia no Castello da Pena e a sr.ª D. Maria Pia no palacio da villa de Cintra. No dia 4, ás duas horas da madrugada, o telephone havia annunciado á criadagem da mãe do monarcha que a Revolução estalara em Lisboa. Como ella dormia, ninguem a quiz despertar para tão sensacional noticia. Só ás oito da manhã é que lhe disseram francamente a verdade. A sr.ª D. Amelia mandou ligar para o paço da villa e a sr.ª D. Maria Pia decidiu logo ir á Pena com a s.ª marqueza de Unhão e o sr. conde de Mesquitella. Junto da nóra, a viuva do sr. D. Luiz procurou mostrar-se serena, resignada, possuida ainda d'uma energia fóra do commum. Mas a sr.ª D. Amelia não se conteve e como o telephone para o paço das Necessidades continuava a funccionar pessimamente, lançou-se n'um desespero indescriptivel. Deu ordens e contra-ordens, tentou communicar o mais rapidamente possivel com o chefe do governo e, ao cabo de inauditos esforços, lá conseguiu que de Lisboa lhe dissesem que o rei tinha sahido de casa, a caminho d'um refugio seguro.

No dia 5 de manhã, as duas rainhas partiam de Cintra para Mafra. O sr. D. Manuel esperava-as no convento, rodeado pelos servidores fieis: condes de Sabugosa e S. Lourenço, marquez do Fayal, tenente coronel Waddington, Vellez Caldeira e dr. Mello Breyner. Depois do almoço, que ainda foi servido em Mafra, uns emmissarios que surgiram offegantes vindos de Cascaes, noticiaram que a Republica já havia triumphado. Logo a seguir, outro emmissario notificou que o yacht Amelia se encontrava na Ericeira tendo a bordo o sr. D. Affonso e que a familia real devia embarcar sem perda de tempo, para evitar que os revoltosos ainda a surprehendessem em territorio portuguez. Como o yacht tinha poucos mantimentos, o monarcha, a mãe e a avó arranjaram farneis e puzeram-se a caminho d'aquella praia.