—V. ex.ª consente pormenores da explosão? perguntava o jornal.
—Não tenho nada com isso, respondia o primeiro ministro de D. Carlos... os senhores bem sabem o que lhes compete fazer.
—Mas a lei de 13 de fevereiro?...
—Ah! sim, está em vigor...
—E... v. ex.ª applica-a?
—Naturalmente.
—Mas o publico precisa ser informado...
—Bem sei... mas eu nada tenho com isso... mandem ao governo civil. Vou recommendar para ali que forneçam a todos os jornaes uma nota resumida do caso.
E assim succedeu. Uma hora depois, os reporters que tinham ido ao bebedouro commum da informação officiosa regressavam com cinco linhas—cinco linhas apenas, não exageramos—em que se registava, n'uma linguagem quasi sybillina, a descoberta, por meio do desastre, do fabrico de explosivos para fins manifestamente criminosos. Uns jornaes publicaram essa nota na integra, sem resalvarem a proveniencia; outros, mais escrupulosos, precederam-na d'outras linhas que a reduziam ao seu justo valor; um unico teve a coragem de transgredir as ordens do dictador, noticiando ao mesmo passo o nome d'uma das victimas da explosão!...
O relato pormenorisado do acontecimento com as competentes gravuras (photographias dos cadaveres na Morgue, croquis do interior do quarto de estudante e a reconstituição graphica da scena commovente) foi no dia immediato exportado para o Brazil e inserto n'uma folha do Rio, afim de que se não perdesse totalmente o trabalho do noticiarista, a presteza do photographo e a habilidade do desenhador.