[CAPITULO II]

[Um «accidente de trabalho» e uma evasão romanesca]

O proprio Aquilino Ribeiro—que, diga-se de passagem, é um intellectual—descreveu mais tarde ao signatario d'estas narrativas como occorrera o desastre da rua do Carrião.

—Aquillo foi assim—contou elle. Eu nunca tinha feito bombas, apesar das minhas convicções já me terem enfileirado n'um grupo libertario. Sabia que n'essa occasião, e mercê da preparação do movimento revolucionario do 28 de janeiro, esse fabrico se alargara a diversos pontos de Lisboa e mesmo fóra de Lisboa e dava-me intimamente com diversos militantes e propagandistas da acção directa. Tinha até cooperado na organisação do ataque aos quarteis e ás forças da municipal, indo com Alfredo Costa e outros alugar quartos em varios pontos estrategicos, d'onde projectavamos dynamitar essa legião fiel ao regimen monarchico. Um bello dia o dr. Gonçalves Lopes pediu-me para levar ao meu quarto dois caixotes com bombas. Hesitei, observando-lhe que a dona da casa podia attentar no facto, mas elle desvaneceu-me todos os receios, explicando-me que necessitava absolutamente transformar o meu aposento n'um deposito eventual de explosivos.

João Franco

«Combinou-se o transporte dos caixotes do consultorio do dr. Gonçalves Lopes, na rua do Ouro, para ali, mas, ou porque elle não me pormenorisasse bem como a coisa devia ser feita, ou por outro motivo de que me não recordo, o moço incumbido de os levar á rua do Carrião teve de arripiar caminho e voltou com os caixotes para o consultorio. Grande pasmo do dr. Gonçalves Lopes e, no dia seguinte, após uma breve explicação que eu e elle tivemos no Suisso, os caixotes (cada um pesando approximadamente sessenta kilos) tornaram a emprehender a viagem para o meu quarto. Desde então, passei tambem a collaborar regularmente no fabrico de explosivos.

«Vendo o dr. Gonçalves Lopes e o commerciante Belmonte, seu companheiro na manipulação dos engenhos, carregarem umas tantas bombas, aprendi facilmente a operação e no domingo do desastre em que nos reuniramos para a continuar já me comportava ao lado de ambos como um fabricante experimentado. Tinhamos carregado umas sessenta ou oitenta e faltava ultimar muitas mais. O dr. Gonçalves Lopes parou a descançar e disse-me:

«—Você agora podia incumbir-se do resto...

«Eu não respondi de prompto e, ficando assente que á noite recomeçariamos a operação, dispuzemo-nos, no emtanto, a carregar mais tres para dar por finda a tarefa da tarde. Cada um de nós pegou n'uma bomba vasia. Na minha frente estava o dr. Gonçalves Lopes e mais adeante o seu companheiro. O dr. Gonçalves Lopes, descuidando-se um pouco nas precauções que era de uso tomar em taes circumstancias, principiou a martellar com força no engenho que tinha na mão. Ainda lhe recommendei prudencia; mas elle sorriu-se, incredulo, do meu receio, e continuou o trabalho. De repente, um grande estrondo atordoou-me sensivelmente. A bomba do dr. Gonçalves Lopes explodira. Vi-o cahir esphacelado, salpicando-me de sangue e vi o commerciante Belmonte avançar para mim, soltando um grito como o d'um animal ferido de morte. Acolhi-o nos braços, mas tive que o largar logo a seguir porque já agonisava.