Durante o dia 4, tanto infantaria 5 como caçadores 5 evolucionaram dentro da area da defeza do quartel general. Ao começo da noite, caçadores estava assim distribuido: na rua Augusta, guarnecendo o primeiro quarteirão, um pelotão do commando do alferes Gomes da Silva, pertencente á companhia do capitão Aguiar; na rua do Arco do Bandeira, a companhia do capitão Penha Coutinho, hoje em serviço na policia civica; na rua do Ouro e na rua do Carmo, a companhia do capitão May; na rua da Betesga, a do capitão Reis com a guarda fiscal; na praça dos Restauradores, o alferes Empis com duas metralhadoras. Era o momento em que os grupos de populares, já reconstituidos convenientemente—passados os primeiros instantes de desanimo—tratavam de incommodar as forças monarchicas ou que suppunham como taes, atirando-lhes bombas, disparando tiros de pistola, etc. E conta a proposito o tenente Valdez:
«No principio da noite fomos atacados por bombas de dois lados. Estabeleceu-se uma enorme confusão. Em vista da desmoralisação que reinava entre os soldados, muitos fugiram. Alguns, obedecendo ao plano, metteram-se nas arcadas. Muitos, por panico, fizeram um tal tiroteio e tão disparatado que eu e os mais officiaes escapámos não sei como. Uma bala sibilou-me aos ouvidos e roçou-me pela face. O largo limpou-se e eu reconheci com alegria que facilmente qualquer força entraria no Rocio. Como julgassem as forças extenuadas, ordenaram que alternassemos com a guarda fiscal que então pairava na estação do Rocio. Foi assim que fomos descançar para as trazeiras da mesma estação. Ali encontrámos um empregado a quem contámos as nossas torturas e desejos e como lhe manifestassemos as nossas intenções de fugir para a Rotunda pelo tunel, d'isso nos dissuadiu por motivo da chegada de um comboio que vinha de Queluz, avisando-nos tambem de que ali estavamos mal, por ser possivel virem n'esse comboio revolucionarios que podiam atirar-nos bombas do pavimento superior. Lembrou-nos fugir pelas escadinhas do Duque, mas, interrogado por nós sobre a existencia de quaesquer forças no trajecto, respondeu-nos nada saber. Tambem logo a seguir passava um esquadrão para esses lados.
«Posta de parte essa ideia, resolvemos esperar os acontecimentos, convencidos de que era inevitavel uma colisão entre as nossas forças e as dos revoltosos. Como fosse manifesta a desmoralisação das nossas forças, eramos rendidos das dez para as onze da noite por um outro batalhão do regimento, e eu fui com a minha companhia occupar a travessa de S. Domingos, reparando que alguns soldados tinham desapparecido, tendo aproveitado naturalmente as varias confusões que se deram. Fingi não dar por isso. Na nova posição soube que a artilharia de Queluz tinha collocado uma peça na rua do Ouro, outra na rua Augusta e que estava dispondo outra no local que deixaramos. As informações que recebiamos sobre a marcha dos acontecimentos eram deficientes. Nada de seguro nos diziam. Falava-se que o rei fugira para Mafra. Affirmava-se que os revoltosos tinham sido batidos. Realmente, n'essa altura, o tiroteio da Rotunda parecia diminuido e o facto do ataque da marinha ainda se não ter dado preoccupava-me immenso.
«Nas nossas forças não havia ainda mortos e os feridos eram poucos. O moral das tropas, especialmente das companhias que tinham estado na Avenida, era mercê dos trabalhos feitos, o mais favoravel a qualquer ataque. Na minha nova posição tornava-se facil a communicação com os officiaes, o que até então me era impossivel, visto achar-me distante d'elles. Esperançado, como sempre estive, da realisação do meu ideal, principiei a palpál-os e durante toda a noite, emquanto o canhão ecoava com estrondo no largo de Camões, não os larguei, reparando que quasi todos desejavam ver terminada uma situação de incerteza, não encontrando em nenhum d'aquelles a quem falei essa tão decantada fé monarchica. O primeiro official a quem falei foi ao tenente Americo Cruz, o qual, depois das considerações que lhe fiz sobre a enormidade dos acontecimentos, fuga do rei, tibieza dos chefes e sobretudo do sacrificio que ali estavamos cumprindo por um que, a essas horas, estava são e salvo, me respondeu com igual criterio, accrescentando que tinha já achado o commandante abalado.»
Na Rotunda, Machado Santos passava verdadeiras torturas, porque via diminuir-se-lhe a provisão de munições e não sentia que de fóra o auxiliassem como elle realmente necessitava. Quem entrasse ás dez horas da noite no acampamento perceberia claramente que se tinha attingido a culminancia critica do movimento revolucionario. Havia lá dentro mais gente do que na madrugada de 4. Havia mais disciplina, mais silencio commovedor, mais solemnidade, em summa. De vez em quando a grave quietude do ambiente era interrompida por uma descarga de fusilaria, a explosão d'uma granada ou o crepitar enervante das metralhadoras.
Machado Santos tinha entregue ao tenente Pires Pereira o commando da bateria e das linhas de fogo do lado da Avenida e ficara a vigiar as posições do norte e leste. De repente um dos predios novos d'aquella arteria incendiou-se casualmente e o clarão da enorme fogueira illuminou por algum tempo o acampamento revolucionario, até então immerso na obscuridade.
E que fazia, entretanto, o governo monarchico? O ministro da guerra installara-se no Quartel General da 1.ª divisão e d'ahi seguia absorto todas as phases da contenda. O presidente do conselho, depois de ter conferenciado com o general Gorjão e o seu collega da guerra, fôra para casa e antes de entrar no edificio soffrera o ataque de um grupo revolucionario que o deixou mal ferido. Dos outros ministros podemos dizer que vagabundearam por diversas casas amigas até o momento solemne da proclamação da Republica.
Proximo da meia noite, o tiroteio entre os dois nucleos de forças militares, o do Rocio e o da Rotunda, augmentou de intensidade. A artilharia monarchica tentou fazer calar a do Alto da Avenida, mas sem resultado. Adivinhava-se n'essa occasião que a victoria não tardaria a pertencer aos revoltosos. De todos os lados surgiam novos elementos de combate. Os organisadores do movimento, que na primeira hora de desanimo tinham dispersado, principiavam a acercar-se do principal fóco da contenda, procurando assim conservar-se mais em contacto com os seus adeptos. O Hotel Europa foi um dos pontos escolhidos para essa concentração dos vultos em destaque na acção revolucionaria. Para ali foram, ao começo da noite de 4, José Relvas, José Barbosa e outros que até então haviam tentado, na redacção da Lucta, reatar as ligações entre os revoltosos—interrompidas pela debacle do balneario de S. Paulo.
«A rua do Carmo, contou-nos mais tarde José Barbosa, era, n'essa noite, um ponto visado pelas tropas fieis ao antigo regimen. Um grupo de doze populares devidamente equipados protegeu-me e a José Relvas mais do que uma vez, sempre que tentámos vir á rua orientarmo-nos sobre a marcha da Revolução. E essa protecção foi tanto mais efficaz quanto é certo que d'uma das vezes as balas silvaram sobre as nossas cabeças. Depois da meia noite, installámo-nos no ponto mais alto do hotel. D'ahi viamos distinctamente as operações dos navios de guerra e apercebiamos todas as phases do tiroteio renhido entre as forças do Alto da Avenida e as do Rocio. Houve um momento em que a batalha assumiu taes proporções, que hesitámos sobre de que lado ia surgir a victoria. A escuridão deixava-nos desnorteados. Chegou Celestino Steffanina e fomos os dois para o meu quarto. Era preciso descançar; mas era impossivel! Da rua do Ouro vinham até nós, de mistura, com o fuzilar da infantaria, gritos de desespero, de agonia, d'uma tortura infinita. A situação, ahi pela 1 e 30 da madrugada, não podia ser mais angustiosa. Celestino Steffanina sahiu do Hotel Europa a colher informações.
«Entretanto, no Rocio, o elemento popular não cessava de atacar as forças ali estacionadas. Cabe referir que entre os meios de que a Revolução dispunha para triumphar, se salientava notavelmente a chamada artilharia civil, isto é, as bombas explosivas. Utilisadas como verdadeiras granadas de mão, posso affirmar, porque é a expressão da verdade, que os revolucionarios não praticaram com ellas nenhum acto inutil, não damnificaram qualquer propriedade, não as empregaram para satisfazer rancores individuaes ou represalias censuraveis. As bombas explosivas serviam para atacar as forças fieis ao antigo regimen e todas as que foram lançadas com exito visaram, naturalmente, a que essas forças não incommodassem sériamente os soldados da Republica.»