Pinto de Lima acceitou gostosamente o novo encargo e lá foi rua Augusta abaixo acompanhado do emissario do coronel, doido de contentamento, dando vivas á Republica. Era o momento em que já vinham de bordo o alferes Gomes da Silva e o commissario naval Marianno Martins. O que determinara a démarche d'esse official revolucionario junto do tenente Parreira? Descreve-o elle proprio do seguinte modo:
«Cêrca das 6 e 30 da manhã de 5, o tenente coronel Peixoto reuniu os officiaes para lhes participar que infantaria 5 se negava a fazer fogo e que em presença d'esta deliberação desejava ouvir os seus officiaes. Fez-se na corporação um silencio que foi roto quasi simultaneamente pelo capitão Penha Coutinho e por mim, que dissemos que era tambem a opinião dos nossos soldados. Ao ouvir as nossas palavras, respondeu o tenente-coronel Peixoto que n'este caso era melhor retirarmos.
«Ditas estas palavras enfiei pela rua Augusta e ao chegar ao Terreiro do Paço fui immediatamente cercado pelo povo, a quem communiquei o que se passava e dirigi-me a bordo do S. Raphael, aonde participei aos tenentes Parreira e Souza Dias que infantaria 5 e caçadores 5 se tinham negado a fazer fogo, e portanto achava asado e propicio o momento para desembarcar os marinheiros e tomarmos o quartel general. Não sem reparos pela estranheza que esta communicação lhes causava, apesar de ser conhecido de um d'elles como official implicado no movimento, exigiram-me a palavra de honra que as tropas do Rocio não fariam fogo sobre elles, mas era-me absolutamente impossivel acceitar tão grande responsabilidade, porque a resolução de ir a bordo havia sido tomada por mim por entender propicio o momento de obter a submissão do quartel general.
«Respondi-lhes, entretanto, que viesse um d'elles comigo ao quartel general, onde poriamos tudo a limpo. Foi acceite este meu alvitre e parti, acompanhado pelo commissario naval Marianno Martins, para o quartel general, onde vimos ainda arvorada a bandeira branca, tendo já retirado caçadores 5, restando apenas infantaria 5, que, comtudo, já estava cercada pelo povo, a quem o tenente Valdez havia dado entrada pela rua de S. Domingos...»
Approximava-se o momento da rendição. Não tardaria que a bandeira branca do quartel general fosse substituida pela da Revolução triumphante.
[CAPITULO XXIII]
[Proclama-se a Republica no edificio da Camara Municipal]
Pouco antes das 7 da manhã, o encarregado dos negocios da Allemanha procurou o general Gorjão e pediu-lhe o armisticio de uma hora. O general concedeu-lh'o e escreveu este papel, cujo original, pertencente ao denodado republicano sr. Rodrigues Simões, figurou no Museu Revolucionario:
COMMANDO
DA
1.ª DIVISÃO MILITAR
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Gabinete do General
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