O Estado toma conta d’isso que lhe pertence; e, quando Vossas Senhorias tiverem uns amigos hespanhoes, francezes, inglezes, turcos ou moiros, que lhes perguntem, fazendo obra pelos mais aperfeiçoados diccionarios geographicos extrangeiros, se Portugal é provincia hespanhola, ou ingleza—podem leval-os ao Museu nacional, onde lhes provarão que somos livres, que temos Historia mais brilhante que a d’elles, que temos Arte, que temos Civilização, que temos alma nacional que já se expandiu pelo mundo inteiro com o genio dos grandes heroes e dos grandes artistas.

Dirão mais a Vossas Senhorias:

Se tiverem filhos que necessitem de estudar a Pintura, ou as Artes decorativas, ahi ficam á disposição d’elles todos esses productos que permaneciam dispersos, ignorados e inuteis pelas egrejas sertanejas. Ahi encontrarão, tambem, para o estudo comparativo, exemplares da eschola hespanhola, com as telas de Velasquez, de Murillo e de Ribera; ahi está a eschola flamenga com Rubens; a hollandeza com Rembrandt; a italiana com Raphael, Ticiano, Tintoreto, Miguel Angelo; podem entrar, ver, estudar minuciosamente, copiar—nada pagam.

E, apesar de todas estas incalculaveis vantagens, exclamam Vossas Senhorias:

e quanto xe nos dão?

*

Vossas Senhorias teem ido, por vezes, a Lisboa.

Lembro-me, até, que muito antes que Succi fosse conhecido com os seus jejuns, já a gente por cá admirava as especialissimas propriedades da membrana mucosa do estomago do sr. Sampaio, que não segrega sómente succo gastrico, mas, tambem, succos nutritivos, como se evidenciou n’aquella viagem, em que Sua Senhoria, tendo sahido da Balagota com o cabazinho repleto de pastelinhos de bacalhau e de girimu, pitos assados, rabanadas e cornuchos, com elle intacto, depois d’uma ausencia de oito dias, na Balagota entrou.

Vossas Senhorias teem ido, por vezes, repito, a Lisboa. Conhecem tudo o que existe na capital.