Com franqueza:—sem querer irritar a indisposição que no espirito do Nascimento violentamente se denunciou contra o Zinão, sem querer amesquinhar o culto idolatrado que elle nutre pela Arte dramatica, ou apoucar as suas aptidões—direi em homenagem á Verdade: Nascimento é um barbaro!

É um barbaro quando pisa o palco, porque não tem naturalidade, nem expressão, nem relevo.

Apresenta-se em todas as scenas com o mesmo fato amarello, de tecido africano, que o Isidoro lhe empresta; tem para todas as surprezas o mesmo oh!; para todas as dores o mesmo: ai Jesus!; para todas as saudações o mesmo: ora viva!; para todos os cumprimentos o mesmo: Comoestá? Passoubem? Bemmuitoobrigado.

Os pés soldam-se-lhe ao pavimento: as peças das articulações unificam-se, como se as membranas synoviaes segregassem chumbo derretido; os musculos tomam a rigidez do aço, permanecendo hirtos, inteiriços, refractarios ao imperio da vontade e á malleabilidade dos sentimentos.

Não tem flexibilidade nos movimentos, nem elasticidade nas formas que as diversas situações exigem, porque uma barreira de frieza e de immobilidade—quiçá composto de espessas cellulas philosophicas (?)—se oppõe á intima e immediata transmissão dos phenomenos psychicos aos orgãos e ramificações do systema nervoso.

Predominam em todas as modulações da sua voz aquellas notas seccas, asperas, do: Carregar! Alto!

Denuncia-se em todas as posições a rigidez d’aquella linha d’uma convexidade opisthotonica, que a Ordenança militar traça para o Perfilar!

E assim, Nascimento, como Boticario da Morgadinha, como carcereiro de 1640, ou como Mano Gaspar do Mano Aniceto—é sempre o mesmo Nascimento: gordinho, obeso, rechonchudo, espartilhado, vestido de mabella africana.

Todavia, estudando as minuciosidades dos seus trabalhos dramaticos, analysando a mechanica dos seus movimentos, comparando a dynamica dos sentimentos que elle tenta exprimir com as manifestações da sua vitalidade no convivio diario e com os actos exteriores da sua existencia social, eu chego á seguinte conclusão que poderá ser considerada como paradoxal: Nascimento, no desempenho dos seus papeis, na interpretação d’um caracter, na reproducção d’um typo, consome mais Sentimento do que o Brazão. O seu trabalho psychico é superior ao d’aquelle artista; na sua alma as situações definem-se, as individualidades esclarecem-se, as faculdades actuam. Nascimento pensa, sente e quer, como Boticario de Val d’Amores; mas o que não possue é esse colorido, ou—por assim dizer—essa moldura artistica que dá relevo ás interpretações e vida aos personagens.